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Passarinho

Luiz Zanin Oricchio

06 Junho 2016 | 00h32

 

Hoje, aos 96 anos, morreu Jarbas Passarinho, uma figura do regime militar. Foi ministro da Educação, Trabalho e Previdência Social em vários governos.

Será, no entanto, lembrado pelas palavras que disse na reunião que decretou o AI-5, em dezembro de 1968: “Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência”. Dirigia-se ao ditador Arthur da Costa e Silva.

O ato afundou o Brasil nas trevas da ditadura mais sangrenta durante os 10 anos de sua vigência.

Um dia eu o vi em pessoa, faz talvez uns 15 anos. Tinha ido a uma livraria no Conjunto Nacional, em Brasília, em busca de um livro de que precisava, e lá estava ele, sapeando as novidades. Curioso, fiquei espiando o que fazia. Ele não tinha pressa, abria os livros, dava uma lidinha, mirava a capa, separava, se o agradava. Levou uma boa pilha de volumes para casa. Pelo que vi, todos bons. Não comprava porcaria nem livro de autoajuda.

Fiquei olhando aquele velhinho simpático, com cara de pacato aposentado, e matutando sobre como esta vida é cheia de nuances e ironias. Aquele signatário do AI-5, corresponsável pela ditadura escancarada que se abriu a partir de 13 de dezembro de 1968, e que causou tantas torturas e mortes em opositores, era também um amigo dos livros, uma pessoa que cultivava o saber.

Gostava de livros e tinha fama de homem culto, como Golbery do Couto e Silva. Digamos que tivesse cultura universal. Mas, num momento crucial da sua vida, essa cultura de nada lhe servira e havia mandado os escrúpulos às favas.  

Esse tal de gênero humano é muito curioso.