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Paris visto por…

Luiz Zanin Oricchio

13 de julho de 2007 | 13h52

Casa cheia ontem à noite para o filme de episódios Paris Vu Par…no Arteplex do Shopping Frei Caneca. Cheguei lá esbaforido e pensei que não fosse conseguir entrar. Havia uma fila enorme e perguntei a uma das pessoas para que filme era: Harry Potter. Mas acontece que a de Paris Visto Por…não estava menor. A sala lotou. Tanto assim que nem o Merten e nem o Dib, que é editor do Caderno 2, conseguiram entrar. Sorte minha, que entrei, pois assisti a um filmaço. Antes da sessão, o adido cultural do consulado francês falou e agradeceu a presença do público para um filme de 1965, “única forma de defender o cinema independente”. É isso mesmo. Se as pessoas não se interessam pelo que vale a pena, as coisas morrem e ficam os block busters da vida.

Quanto ao filme em si, pode-se dizer que todos os seis episódios são, no mínimo, interessantes. Vamos recapitular: Saint Germain des Près, de Jean Douchet, mostra uma estudante americana paquerada por um tipo que ela supõe da alta burguesia parisiense. Em Gare du Nord, de Jean Rouch, um jovem casal vive num apartamento, eles brigam, ela sai para o trabalho e é abordada por um homem estranho, que terá uma atitude mais estranha ainda. Em Rue Saint Denis, de Jean-Daniel Pollet, temos o hilário encontro entre um homem tímido e uma prostituta muito desenvolta. Em Place de l’Étoile, de Éric Rohmer, vemos as peripécias de um vendedor de roupas em um lugar na cidade onde os pedestres não têm vez. Montparnasse e Levallois, de Jean-Luc Godard, mostra uma garota linda e seus dois amantes, um escultor (que usa peças de automóvel em suas obras) e um dono de uma funilaria (ou lanternagem, como dizem os cariocas). La Muette, de Claude Chabrol, tem como personagem central um estudante que não agüenta mais as brigas dos pais e, literalmente, fecha os ouvidos para eles. O próprio Chabrol interpreta o pai e marido insuportável.

Dos seis, se destaca, de longe, o de Jean Rouch. Começa com um maravilhoso plano-seqüência que passeia pelo bairro até penetrar no apartamento. Lá vemos um jovem casal, cujo relacionamento parece precocemente deteriorado. A garota está irritada por que há uma obra em frente deles. Eles têm uma bela vista para o Sacré-Coeur, que lhes será tirada pelo prédio a ser construído. Uma coisa leva a outra e podemos intuir que a moça vive naquela fase de reflexão terrível sobre ter dado um mal passo quando escolheu o marido. Ambiciosa, junto a um marido conformado, parece presa fácil de qualquer aventureiro.

E é nessa direção que Rouch nos conduz. Acompanha os passos da moça, que é quase atropelada, sempre em planos longos. Ela se encanta pelo homem que a aborda, e oscila entre o senso do dever e o desejo de aventura, dilema universal, sabe-se. O desfecho é surpreendente. Brutal mesmo. Espero que um dia vocês vejam esse filme e me contem se tiveram o mesmo impacto que eu.

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