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Para ver um futuro melhor *

Luiz Zanin Oricchio

01 Janeiro 2014 | 15h04

 

O que esperar de 2014? Acho que esta é a pergunta realista que posso fazer na última coluna de 2013. Ano que fecha com maus presságios, a perna quebrada de Anderson Silva, o terrível acidente de esqui de Michael Schumacher. Além desses desastres, fecha também com a volta do tapetão, naquilo que alguns cronistas definiram como “a 39ª rodada do Brasileirão”. Como terminará? Com uma enxurrada de recursos e liminares, que ocuparão o noticiário do começo do ano? E, por fim, talvez, no inchaço do Brasileirão-2014, com a inclusão de todos os pretendentes, Portuguesa, Fluminense, Flamengo, talvez o Vasco, e quem mais possa se aproveitar da bagunça jurídica causada pelo STJD? Nesse caso, será a desmoralização completa, justamente no ano da Copa do Mundo no Brasil.

Com a proximidade da Copa, a tendência natural será concentrarmo-nos nela e esquecermos os problemas estruturais do futebol brasileiro, que ficaram tão em evidência nesse final de 2013. Ano para ser esquecido, a não ser por algumas exceções: o futebol épico do Atlético-MG na Libertadores e o futebol ligeiro e bem jogado do Cruzeiro no Campeonato Brasileiro. Só deu Minas este ano. O resto foi muito ruim. Baixo nível técnico na média e presença pífia de paulistas e cariocas. Vamos relembrar (sempre) que, caso o futebol brasileiro fosse sério e prevalecesse o que acontece em campo, o futebol do Rio teria dois dos seus gigantes rebaixados (Fluminense e Vasco) e outro rondando a degola. (Flamengo). No campo de jogo apenas o Botafogo se salvou, com a classificação para a Libertadores.

Entre os paulistas, o fiasco foi completo. Bem, o Palmeiras fez a parte que lhe coube e voltou à Primeira Divisão. O Corinthians encerrou o ciclo Tite com desempenho abaixo da crítica. O São Paulo parece ter se reencontrado com a volta de Muricy que, no entanto, não foi suficiente para grandes vôos. O Santos, no ano em que vendeu seu principal craque depois de Pelé, até que não foi de todo mal. O menos pior dos paulistas na classificação do Brasileiro não tem, no entanto, nada a comemorar. O futebol de São Paulo anda tão por baixo que a Libertadores da América de 2014 será a primeira, desde 1998, sem nenhum representante paulista. Vamos pensar a respeito?

Uma iniciativa que me encheu de entusiasmo em 2014 foi a criação do Bom Senso FC. Num país em que de fato não se pode confiar em dirigentes e entidades esportivas, talvez alguma coisa interessante possa vir dos atletas. Afinal, são eles que fazem, ou fizerem, o espetáculo que amamos. Conhecem o jogo por dentro e pelos seus bastidores. Reivindicam a coisa certa, a começar pela reformulação do estúpido calendário nacional. Falaram o que tinha de ser dito da CBF — que a entidade deveria ser rebaixada para a quarta divisão. Resta ver como o Bom Senso conduzirá suas pautas em 2014. Eu espero dele a grandeza de não ser uma entidade meramente corporativa e que tenha olhos para o futebol brasileiro como um todo. Afinal, esse pobre a maltratado futebol precisa de quem cuide dele com carinho. E ninguém em melhor posição que jogadores e ex-jogadores para compreender o que significa o futebol brasileiro.

Porque, à esta altura do campeonato, parece bem claro que o futebol brasileiro só terá algum futuro se conseguir se livrar das entidades que não o servem, mas dele se servem. A saber, a CBF e seu kafkiano aparato jurídico, e mais as federações a ela filiadas. Essa estrutura está carcomida e não vejo como consertá-la ou aprimorá-la. Precisa ser implodida, para dar lugar a algo novo. Ou que se ocupe apenas da seleção, sua menina dos olhos e parte mais lucrativa. E deixe que aos homens de bem, se existirem, o comando do futebol praticado dentro do País. É a única maneira de enxergar um futuro melhor para esse futebol que um dia já foi definido como “o melhor do mundo”.

Apesar de tudo, um ótimo 2014 a todos. Nos reencontraremos em janeiro, aqui neste mesmo espaço.

*Coluna publicada originalmente na seção de Esportes do Estadão