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Para um domingo feliz

Luiz Zanin Oricchio

05 Novembro 2006 | 14h44

Amigos e amigas, eis meu comentário de hoje para a seção Revista das Revistas, do suplemento Cultura do Estadão. Desejo a todos um ótimo domingo:

Há algumas décadas, quem fazia um curso de filosofia sabia-se candidato preferencial ao desemprego. A filosofia, com o avanço tecnológico e o crescente antiintelectualismo social, era tida como a mais démodée das disciplinas. Quem iria querer estudar Platão e Kierkegaard no mundo prático que surgia pós-anos 60? Ninguém. Só um bando de pseudo-intelectuais que não tinha nada mais importante com que se ocupar.

Porém, qual não é a surpresa, quando, em pleno século 21, era da internet, dos blogs e da correria pela vida, a filosofia parece ressurgir, intacta, despertando interesse inesperado entre as pessoas. É sobre esse fenômeno que se dedica em matéria de capa a revista francesa L’Express, com um título que já entrega a conclusão: Le bonheur par la philosophie – A felicidade pela filosofia.

Segundo a revista, jamais, em toda a sua história, a filosofia conheceu tamanha popularidade. Talvez haja aí algum exagero, se pensarmos em como, na Antiguidade, a filosofia conformava a vida das pessoas e era sinônimo do próprio conhecimento, mas, enfim, a constatação da revista não deixa de ser verdadeira, em seus limites. E que limites são esses? A própria matéria responde: a popularização da filosofia se deve à sua vulgarização, em pílulas, em livros e programas de TV que mais parecem manuais de auto-ajuda que convites à reflexão. Em todo caso, tudo isso ainda continua a ser filosofia.

Essa filosofia homeopática, um “prêt-à-penser”, como dizem nossos irmãos franceses, chegou também ao Brasil, com o lançamento de inúmeros livros, cursos particulares e programas de televisão, que vão desde transcrições de palestras pela TV Cultura até inserções no Fantástico. É a filosofia finalmente chegando ao povo pela primeira vez na modernidade. Ou não é?

Nada mais incerto, sente-se a tentação de dizer, em especial depois de nos aventurarmos a ler alguns desses livros ou a assistir a certos “cafés filosóficos” que acontecem por aí. Mas talvez mais interessante do que alimentar preconceitos elitistas, seja detectar possíveis razões do fenômeno. Uma pelo menos parece óbvia – a sociedade tecnológica trouxe muitas vantagens, mas entre elas não está o aumento da felicidade individual. O homem que consome mais, que vive rodeado de gadgets, do computador de mão ao iPod, nem por isso é mais feliz. E por que deveria ser?

Quando se pensa nisso, a cena que vem à mente é a de um filme do começo dos anos 60, 1964 para ser preciso – Oito e Meio de Federico Fellini. Na cena em questão, o cineasta Guido Anselmi (Mastroianni), se encontra, numa sauna, com um dignatário da Igreja e se queixa de que não é feliz. Ouve como resposta: “E quem disse a você que deveria ser feliz?” Rigoroso catolicismo, como não se encontra mais.

Mas, como a felicidade se tornou mais que uma aspiração uma obrigação, quase um dever pessoal, é normal que as pessoas a procurem onde e como podem. No consumo? Não, porque o consumo sempre pede mais consumo, numa espiral infinita. Na própria religião? Em parte, porque a religião conforta, promete, mas num mundo laico as pessoas querem a felicidade a curto prazo, neste lado da existência e agora, se possível.

Resta, talvez, a velha sabedoria, que se ocupa de vários temas, como a possibilidade do conhecimento e as questões éticas, mas não foge também da busca pela felicidade. Por falar nisso, e a título informativo, a Nova Alexandria acaba de lançar em edição bilíngüe (latim, português) Sobre a Vida Feliz, tradução de De Vita Beata, que Sêneca escreveu nos primeiros anos da era cristã. Um trecho: “É feliz, portanto, quem tem um juízo reto; é feliz quem está contente com a sua sorte atual, seja ela qual for e ama o que tem; é feliz aquele para quem a razão é que faz valer todas as coisas de sua vida.”
Como não se sabe se esse é o tipo de felicidade a que aspira o homem contemporâneo, fica ainda em aberto a questão proposta pela L’Express. E que é respondida, parcialmente, através de uma série de entrevistas: “Jamais tivemos tanta sede de sentido como agora.” A conclusão, parcial que seja, é das mais interessantes. Chegamos a um ponto de hiperinformação e consumo babilônico (pelo menos para quem pode). Agora temos fome de sentido. E buscamos na filosofia aplacar um pouco essa carência. Mesmo que ela nos venha diluída sob a fórmula de pílulas de sabedoria. Curioso, não?