As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Para Tarantino, o diálogo se constrói como se fosse música

Luiz Zanin Oricchio

09 de julho de 2007 | 18h34

Quentin Tarantino: o que ele ainda terá a dizer? É o que se pode descobrir na longa entrevista concedida à Cahiers du Cinéma após o Festival de Cannes. Tarantino expõe suas idéias ao longo de 12 (!) páginas com fotos, espaço suficiente para qualquer um desenvolver várias teorias estéticas, mesmo que sejam do nível de complexidade das de Hegel. Mas não é bem isso que se espera de Quentin.

Parêntese: entrevistas oceânicas fazem parte da tradição da Cahiers. Pode-se até dizer que o método crítico dos pioneiros da revista baseava-se muito em conversas aprofundadas com os realizadores. O protótipo delas, claro, é aquela, enorme e detalhista, que François Truffaut realizou com Alfred Hitchcock. O velho Hitch era um deus para a Cahiers, acima de todos os outros pela maneira como lograva conformar a forma cinematográfica para seus propósitos. A tese da Cahiers era de que toda a metafísica do filme, por assim dizer, se encontrava no tipo de enquadramento, nos movimentos de câmera, na montagem. Não há um ‘au-delà du film’, algum lugar além dele em que se possa encontrar um conteúdo abstraído da forma. Fechar parêntese.

Isso para dizer que as entrevistas tendem, então, a ser muito técnicas porque vai-se falar mais do esqueleto da obra que de intangíveis intenções ou referências do diretor. Tudo está na forma.

Desse modo, não deixa de ser surpreendente a entrevista com Tarantino, uma vez que a ‘questão literária’ nela ocupa um espaço considerável. Explica como escreve seus diálogos – à mão, depois transcritos na máquina de escrever, que bate com um dedo só.

Acha que catar milho na máquina lhe é favorável, pois dá tempo de exercer seu senso crítico. E mais, se a página que tem de datilografar desse jeito penoso o cansa, entende que a cena está muito longa e não vai funcionar no cinema. Em seguida, quando se dá por satisfeito, liga para um amigo e lê o texto por telefone. Espera não exatamente um comentário crítico, mas apenas escutar sua própria voz, lendo para um interlocutor. Diz que faz várias correções depois desse processo, até que os diálogos se tornem perfeitamente coloquiais. Quem conhece seus filmes sabe que a ‘naturalidade’ do que é dito constitui um dos seus pontos fortes. O diálogo tem de fluir, tal qual um movimento de câmera.

Tarantino considera Dylan um grande narrador. Não Dylan Thomas, mas Bob Dylan, mesmo. Além dele, cita os escritores que mais o influenciam: Elmore Leonard, J.D. Salinger e mais o cômico negro Richard Pryor, de quem admira o ritmo e a música de seus monólogos. Como se vê, Tarantino, mesmo em seus gostos literários, é um heterodoxo.

(Estadão, Caderno Cultura, 9/7/07)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.