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Para quem vai o dinheiro?

Luiz Zanin Oricchio

04 de novembro de 2006 | 12h43

No meu post sobre a premiação da mostra rolou uma discussão sobre o prêmio de R$ 400 mil da Petrobrás para distribuição e exibição atribuído, pela votação popular, para O Ano em que os Meus Pais Saíram de Férias e Antonia. O primeiro é da Columbia; o segundo é de uma distribuidora brasileira e de porte médio, a Dowtown. Questionam-se os critérios: por que o prêmio do público deveria servir para alavancar dinheiro (público, afinal) para beneficiar a carreira de um filme e, pelo menos no segundo caso, de um filme já amparado por uma major? Ou, como lembrou outro comentarista do blog: por que o prêmio foi dado a um filme como O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, que já havia entrado em cartaz no circuito comercial no exato momento em que o prêmio foi anunciado? São questões bem válidas, a meu ver. Algumas considerações sobre elas:

1) No caso da Petrobrás é exigido, com comprovação de recibos, etc, que esse dinheiro será mesmo gasto para os fins a que foi proposto. Não é pegar o dinheiro e colocar no bolso, mas gastá-lo de fato para distribuir e exibir o filme. Esse é um lado positivo.
2) Concordo com o Duda Valente que atribuir essa responsabilidade ao público é populismo. Deveria haver um jeito melhor de alocar essa grana, e destiná-la para filmes que realmente necessitem dele. E o Duda cita vários que não tem distribuição garantida, incluindo o maravilhoso (e difícil) Serras da Desordem, de Andrea Tonacci. Filme que dificilmente ganharia um prêmio do público mas que tem o direito de existir comercialmente, de ser visto.
3) A suposição em atribuir a responsabilidade ao júri popular, além de populista, embute uma idéia interessante, que merece ser examinada: a suposição é que se o filme caiu no gosto popular, então deve ter mais chances na carreira comercial. Em linguagem, também popular: significa apostar em cavalo ganhador. Será esta a finalidade do prêmio da Petrobrás? É matéria para discussão mais cuidadosa.

Sobre esse último tópico, uma pequena história pessoal ilustrativa, cuja conclusão (moral ou não) deixo aos leitores: anos atrás participei de um desses júris de finalização de longas-metragens. No final da discussão, havia dois candidatos em pauta: um, com amplas possibilidades comerciais; o outro, um miúra, que se não contasse com aquela grana ficaria pelo meio do caminho. Usei toda a minha retórica (que deve ser pouca) em favor deste último. Era a única chance dele. Ganhou, é claro, o primeiro, com os bons argumentos do resto da comissão de que o risco seria menor, o dinheiro seria melhor aproveitado, etc. Conclusão: hoje em dia assumir riscos virou quase sinônimo de irresponsabilidade. Outra conclusão, esta bem antiga: só se empresta aos ricos, pois estes dão garantia de retorno. Os “pobres” (no sentido metafórico, por favor) que vão baixar em outro terreiro.

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