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Para quem ainda vai de Oscar

Luiz Zanin Oricchio

26 Fevereiro 2008 | 18h50

Para além da vitória mais ou menos óbvia dos Coen com Onde os Fracos Não Têm Vez, fica uma impressão diferente deste Oscar 2008. Uma impressão cosmopolita, se poderia dizer. Na mais norte-americana das cerimônias, quem fez a festa, em certo sentido, foram europeus. Prêmios para os britânicos Daniel Day-Lewis e Tilda Swinton. Prêmios para a francesa Marion Cotillard e para o espanhol Javier Bardem. Documentários que falam da guerra no Iraque. E por aí vai.

É como se Hollywood passasse ao mundo um recado antiprovinciano e recusasse qualquer identificação com o atual governo dos Estados Unidos e sua política externa. Esse recado esteve latente durante a cerimônia e às vezes se explicitou em piadinhas do tipo: “Você já escolheu o candidato democrata em quem vai votar?”, formulada pelo apresentador Jon Stewart. O mesmo Stewart disse que, como o Oscar estava completando 80 anos, tornava-se forte candidato republicano para a presidência, alusão à uma hipotética gerontocracia (mental) do partido de Bush. São idéias nobres, que expressam um país politicamente dividido e sincero na oposição ao unilateralismo da era Bush.

Já o recado “político” dos filmes, em si, é menos explícito, embora possa ser buscado. O principal vencedor, Onde os Fracos Não Têm Vez, fala claramente dessa América em que os valores mudam e práticas éticas antigas já não têm mais sentido no mundo atual. É esse o teor do romance em que se origina No Country for Old Men (Onde os Velhos Não Têm Vez, tradução de Adriana Lisboa para a Alfaguara). Essa consciência “antiga” é o xerife Bell, na magnífica interpretação de Tommy Lee Jones. E o “novo”, que ele não entende, não aceita e nem sabe combater é o personagem que deu a Bardem o Oscar de coadjuvante – Anton Chigurh, uma força de violência implacável, serena, determinada a não recuar diante de nada.

Como usualmente ocorre, no filme dos Coen é uma montanha de dinheiro fácil que desencadeia todo um processo no qual muitas pessoas, várias das quais inocentes, serão mortas. No coração do capitalismo se sabe dessas coisas e por isso lá se produziram filmes como Ouro e Maldição e O Tesouro de Sierra Madre, para ficar nos mais evidentes. Obras que associam a busca do lucro fácil e rápido com a destruição, pessoal ou geral, como ocontece com os personagens de McCarthy, relidos pelos Coen.

Em outros termos, a crítica à acumulação desenfreada ocupa o centro de outro premiado, Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson. O personagem Daniel Plainview, que deu a Daniel Day-Lewis a estatueta de melhor ator, trabalha no princípio acumulativo de maneira obsessiva. É a sua ambição desmedida que o levará ao topo de uma carreira de explorador de petróleo. Mas, ao contrário do que supõe a ideologia liberal, esse pecado íntimo não se transformará em virtude pública. Plainview semeia a destruição por onde anda, inclusive a do próprio filho adotivo e, no final, a de si mesmo. A crítica à pulsão argentária não vem do nada. Deve-se a uma adaptação do romance Oil!, do socialista Upton Sinclair, escrito em 1927, às vésperas do craque da Bolsa de Nova York. Mas, como já foi observado por aí, o filme dá uma dimensão épica, quase teatral, ao livro um tanto didático de Sinclair, texto que procurava ganhar partidários para uma causa. Relido hoje, e pelo cinema, marca apenas a tragédia e o desespero de um mundo desencantado, regido pelo dinheiro e não por qualquer outro tipo de consideração ética.

Entendido assim, Sangue Negro não é de modo nenhum um panfleto, mas apenas uma maneira de encenar as origens de um modo de vida que resultou no desastre atual – o embate entre o capitalista e o fanático religioso, Eli Sunday (Paul Dano), faces da mesma moeda, criador e criatura, destinados a destruir-se mutuamente. O filme é também alusivo a essa busca norte-americana por fontes de petróleo espalhadas pelo mundo, o que reconduz, ainda uma vez, ao Iraque e às conseqüências das intervenções no Oriente Médio.

Os Coen tiveram uma premiação numericamente pequena porém sólida. No mais, a distribuição de estatuetas teve caráter pulverizado. Ninguém chegou perto de vencer o chamado “big five”, em que um único título monopoliza as cinco categorias consideradas principais: filme, direção, ator, atriz e roteiro. Os Coen levaram filme, direção e roteiro (adaptado). O ator foi Daniel Day-Lewis e a atriz, Marion Cotillard, de Piaf – Hino ao Amor. E outro dos filmes com maior número de indicações (sete), o drama Desejo e Reparação, levou apenas um prêmio de consolação para a trilha sonora, melosa e grandiloqüente, de Dario Marianelli.

Talvez se possa pensar que Desejo e Reparação tenha sido superestimado ao despontar como um dos favoritos. Drama romântico, inspirado no prestigioso romance Atonement, do britânico Ian McEwan, acabou prejudicado pelo tom artificioso de filme de época clássico, embora tenha evidentes qualidades. Mas talvez o ano não fosse para esse tipo de produção, seja porque o romance original tenha sido edulcorado, seja porque a sensibilidade do momento estivesse voltada para outra parte.

De qualquer forma, na linha não política desta edição do Oscar, quem se saiu melhor foi a França e um dos seus ícones internacionais – a cantora Edith Piaf, que teve vida tumultuada e fim trágico. Os dois prêmios – de maquiagem e atriz – convergem diretamente para o que interessa no filme, a persona da intérprete de La Vie en Rose, na poderosa criação de Marion Cotillard. Quem viu, na cerimônia do Oscar, a linda e elegantíssima Marion, terá dificuldade em reconhecê-la como a feiosa, expressiva e, no final, envelhecida e encurvada Piaf. Milagres da maquiagem, reconhecidos pela Academia? Também, mas o determinante parece ter sido a composição de personagem de Cotillard, numa entrega a um papel como havia muito não se assistia numa tela de cinema.

Quem assistiu a Piaf – Hino ao Amor sabe do que se está falando. Se o filme de Olivier Dahan não deixa de ter alguns problemas, ele ganha o espectador por sua sinceridade e, claro, pela música e pela atriz. Existe algo nessa transcrição da vida de Piaf que talvez toque uma outra vertente da nossa sensibilidade contemporânea – a nostalgia de um tempo hoje depreciativamente classificado de “romântico”. Uma secreta admiração por alguém que pautava a sua vida pelo sentimento amoroso, a ponto de se destruir por ele. Os versos de Hino ao Amor, um dos grandes sucessos de Piaf, e aqui gravado, em versão, por Dalva de Oliveira, podem hoje parecer exagerados em sua entrega e devoção ao ser amado. Nós, modernos e céticos, podemos até rir desse destempero afetivo. Mas será o riso do cínico, daquele que conhece, no íntimo, o preço cobrado em humanidade pelo pragmatismo extremo. Por isso Piaf, a personagem e o filme, nos comovem por aquilo que perdemos e não queremos admitir.

Esse “recado da intimidade”, que em Piaf vem de outra época, aparece atualizado nesse pequeno e amorável filme que é Juno. Se em Piaf tudo é drama, em Juno, a sensibilidade moderna manda desdramatizar. É com delicadeza que se trata dessa estratégia de sobrevivência pessoal em tempos difíceis, quando a gravidez de uma adolescente que mora com os pais já não parece uma aberração e nem mesmo uma raridade. Faz parte. E se a atriz Ellen Page, com seu frescor e espontaneidade, não podia mesmo competir com Marion Cotillard, parece que o prêmio de roteiro original cai muito bem para a escritora de Juno.

Diablo Cody, ela se chama, pôde ser vista na cerimônia, emocionada, chorosa, com seu vestido de oncinha e tatuagens nos braços. Nome de guerra de Brooke Busey, Diablo é uma ex-stripper que decidiu contar suas experiências através de um blog. Tomou gosto pela escrita e produziu esse roteiro inteligente, sincero, que pode não ser perfeito como andou se dizendo por aí, mas tem muito a dizer e a expressar sobre a vida do jovem contemporâneo, na maior parte das vezes completos mistérios para seus pais.

Ter reconhecido com prêmios essas variantes da sensibilidade contemporânea – da política à intimidade – fez do Oscar 2008 uma edição das mais interessantes dos últimos anos.

(Caderno 2, 26/2/08)