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Para ler

Luiz Zanin Oricchio

16 de fevereiro de 2011 | 09h57

Assino jornal para ler. É óbvio? Nem tanto. Na cabeça de algumas pessoas que hoje dirigem jornais, “o leitor não o é”, na frase famosa já não me lembro de quem.

Claro que se o bom texto vier embalado de maneira caprichada, com fechamento competente (título atraente, legendas inteligentes), diagramação leve, belas fotos, etc., a leitura se torna mais prazerosa. Ninguém é contra a excelência gráfica do produto.

Mas, no fundo, no fundo, quem gosta de ler se importa mesmo é com a qualidade do texto que lhe é oferecido. Qualidade, aliás, cada vez mais rara, como sabe qualquer um que tenha exercido a função de editor em alguma etapa da sua vida profissional.

A cada dia é mais difícil encontrar quem consiga conciliar substância e leveza, graça e profundidade, conhecimento do assunto de que trata, despido de pedantismo. Por isso, quando se encontra um profissional competente, um jornalista-escritor na melhor acepção do termo, o normal seria valorizá-lo. Segurá-lo como um time de futebol segura um craque, um fora de série.

Nem sempre é o que se observa. Muitas vezes os jornais e revistas se comportam como se os seus melhores quadros fossem dispensáveis. “As prioridades são outras”, dizem. Que prioridades, pergunto eu? Contratar mais um gerente? Reformar o estacionamento do prédio? O que pode haver de mais indispensável num jornal do que pessoas que escrevam bem?

No momento estou dando um curso de jornalismo cultural na pós-graduação da FAAP. Se eu tivesse uma única coisa a dizer aos alunos, seria esta: a grande revolução do jornalismo contemporâneo seria fazer o jornal que pense única e exclusivamente…no leitor. Esquecer um pouco a concorrência, deixar de tentar (inutilmente) imitar a TV e a internet (são veículos diferentes) e concentrar-se no fundamental, na apresentação de textos bem apurados, bem pensados e, acima de tudo, bem escritos. Para isso, precisa de quem os escreva. É óbvio? Nem tanto.

Jornal que não valoriza seus melhores profissionais está dando um tiro no pé. Condenando-se à irrelevância que, acho eu, é o maior perigo que ronda o jornalismo. Tornar-se dispensável. Provocar no leitor aquela sensação blasé de que tanto faz ler como não ler porque de qualquer forma não estará perdendo grande coisa.

No jornal, o jornalista é o fundamental. Ou deveria ser.

Este texto é homenagem a um colega brilhante e grande amigo.

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