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Para ler e ouvir a voz das ruas

Luiz Zanin Oricchio

22 de junho de 2013 | 20h40

Povo na rua é sinônimo de contestação da ordem estabelecida, desde que o mundo é mundo. E é também assunto de livro. O assunto é tão vasto que rios de tinta correram e florestas de papel caíram para que fosse explicado. Ou que tentassem explicá-lo.

A mais famosa manifestação de rua dos tempos recentes – o maio de 1968 – foi descrita, analisada e esmiuçada em incontável bibliografia. Normal, mesmo porque aconteceu na terra em que uma manifestação de rua, em aparência de pouco alcance, que culminou a tomada da Bastilha, teve consequências imensas e em todo o Ocidente. A Revolução Francesa, que custou a cabeça de reis e mudou a face da História Ocidental, começou com a tomada de uma velha prisão, na qual restavam apenas sete presos, segundo contam as crônicas da época. Quem quiser se informar sobre esses fatos não tem melhor caminho que ler as obras do historiador inglês Eric Hobsbawm em A Era das Revoluções (Cia das Letras).

O mesmo Hobsbawm se debruça sobre o maio francês em um livro mais abrangente, A Era dos Extremos, que versa sobre o que ele definiu como “século breve”, o século 20, que teria começado, na verdade, no começo da 1ª Guerra Mundial em 1914, e terminado com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Entre as duas datas, o maio de 68, que Hobsbawm analisa como um período de “aceleração da História”, um episódio limitado no tempo, e, em aparência, fracassado.

Na ocasião, estudantes da Sorbonne e de Nanterre defendiam reivindicações específicas da classe estudantil. Mas o protesto ampliou-se e o movimento se diversificou. Os operários franceses da Renault e outras empresas entraram no movimento e decretaram greve. O país parou. Quem quiser entender a época pode se beneficiar de clássico do filósofo alemão Herbert Marcuse, Eros e Civilização, que era uma espécie de manual de vida da moçada 68. Marcuse retoma conceitos freudianos para entender como a repressão sexual podia servir à dominação política. E, como, por extensão, a liberação sexual acompanha o pensamento libertário em política.

Mas há inúmeros outros livros que podem dar ideia do período, revivendo-lhes o clima e motivações. Em 68: Paris, Praga, México (Rocco), o escritor mexicano Carlos Fuentes rememora sua vivência nesse tempo de rebeldia. Maio de 68 (Azougue), organizado por Sérgio Cohn e Heyk Pimenta, traz textos antológicos, como a entrevista de Jean-Paul Sartre com Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do movimento,

Cohn-Bendit, ou Danny, Le Rouge, alemão de origem porém residente em Paris nos anos 60, tornou-se um dos principais líderes da época. Mais tarde converteu-se ao Partido Verde e publicou um livro relativizando o movimento, Forget 68 (Éditions de l’Aube). Para ele, é tão irrelevante fazer de conta que 68 não existiu, como queria o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, ou insistir em realizar as promessas de 68, como insiste ainda parte da esquerda. Difícil mesmo de realizar porque, das pautas específicas, os estudantes passaram a exigir “a imaginação no poder” e outras coisas mais. Sonhava-se alto naquele tempo. O que havia começado nas ruas terminara por acuar o governo de Charles De Gaulle que, no entanto, deu a volta por cima e levou a melhor. Prevaleceu o conservadorismo francês. Mas os avanços dessa revolução falhada foram permanentes e se deram mais no campo do comportamento e das artes.

Na mesma época, o Brasil vivia situação semelhante à francesa, com uma diferença importante. Lá, como cá, os estudantes foram às ruas protestar. Mas se na França havia o estado de direito garantido, aqui vivia-se sob a ditadura implantada em 1964. Algumas manifestações ficaram famosas, como a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, e ocupação da Rua Maria Antonia, onde ficava a Faculdade de Filosofia da USP. Em 1968 – o ano que Não Terminou (Cia das Letras), o jornalista Zuenir Ventura capta o clima da época em narrativa empolgante. Aliás, a Rua Maria Antonia era uma espécie de Quartier Latin paulistano. Era o centro nervoso da agitação estudantil e foi lá que se deu o célebre confronto entre os alunos do Mackenzie e da USP. Sobre o assunto há o livro Maria Antônia – História de uma Guerra, do jornalista Gilberto Amêndola.

As Diretas-Já em 1984 e o e os caras-pintadas em 1992 tinham finalidades específicas – a transição democrática e o impeachment de Collor. A derrota num caso e a vitória, no outro, os esgotaram.

Há que lembrar, também, que nem sempre as multidões trazem as boas novas e as boas causas. O fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha reuniram manifestações imensas. Algumas passeatas no Brasil ajudaram a derrubar um presidente eleito. Para entender essa “pulsão” interna das manifestações, a euforia orgástica que provoca nas pessoas e os nada raros episódios de violência a elas associados, nada melhor do que os clássicos – Psicologia de Massas e Análise do Eu, de Sigmund Freud, e Psicologia de Massas do Fascismo, do dissidente da psicanálise Wilhelm Reich.

Os textos clássicos ajudam a entender os movimentos contemporâneos, mas é preciso notar que eles têm sua especificidade, sobretudo na forma de organização. Se antes uma passeata demandava esforço de planejamento longo e minucioso, hoje ela pode ser convocada pelas redes sociais, o que explica o espontaneísmo, o voluntarismo e as pautas fragmentárias, que aliás vão se modificando de um dia para outro.

Os recentes movimentos de rua no Brasil devam ser aproximados a similares como o Occupy Wall Street, os da Praça Tahrir, no Egito, os “indignados” da Espanha, França, Portugal, Grécia, a Primavera Árabe, alguns deles vinculados de maneira direta à crise econômica europeia. Outros a circunstâncias específicas de seus países. O nosso há de ter também a sua identidade, ainda por encontrar. Em todo caso, um dos estudiosos desses movimentos, o sociólogo britânico Paolo Gerbaudo, estudou essa nova modalidade de presença nas ruas. Sustenta que os movimentos de hoje são menos políticos do que os dos anos 60, e vagamente “contra o sistema”. Não têm líderes carismáticos. São organizados pelo Facebook e pelo Twitter. Questões pontuais tornam-se estopins de outras causas coligadas. Seu livro Tweets and the Streets: Social Media and Contemporary Activism (Pluto Books, London, 2012) é uma bíblia contemporânea sobre a questão.

Se os movimentos atuais necessitam de explicação, talvez também precisem de um panfleto. Ele já está escrito. Legou-o o ativista francês Stéphane Hessel (1917-2013), que o escreveu aos 93 anos . Chama-se Indignem-se. Nele, Hessel defende que a principal causa atual está ligada à defesa da liberdade. Não à liberdade de consumir, mas à liberdade política, que se constrói etapa por etapa. Pede “uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massa que propõem como horizonte único para nossa juventude o consumo de massa, o desprezo pelos mais fracos e a competição sem mercê de todos contra todos”. Termina legando aos jovens “que farão o século 21”, esta frase simples: “Criar é resistir, Resistir é criar”.

A leitura de Hessel não faria mal à moçada das ruas.

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