Para lembrar o homem do povo Charlie Chaplin
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Para lembrar o homem do povo Charlie Chaplin

Luiz Zanin Oricchio

19 de outubro de 2011 | 11h07


Chaplin é um mundo. Tão grande que, por paradoxo, precisamos falar dele de vez em quando para não esquecê-lo. Por exemplo, é preciso lembrar que poucos artistas se aproximaram tanto do homem comum – talvez porque ele, de fato, foi um deles. Homem comum, de gênio. Dele, Truffaut diz que “embora não fosse o único cineasta a descrever a fome, foi o único a conhecê-la”.

Talvez essa circunstância o distinga nesse métier caro, espécie de território de caça reservado aos ricos e aos remediados. Chaplin conheceu a miséria. Filho de pai alcoólatra, mãe insana, foi menino de rua e conviveu “com as classes mais baixas da sociedade”, como conta em suas Memórias. Esse duro conhecimento de causa impregna boa parte de sua obra. Não a explica, porque nada a explica senão o insondável do gênio. Mas está lá.

No entanto, de vez em quando lemos as inevitáveis listas de melhores filmes de todos os tempos e não encontramos nada de Chaplin. Onde estarão filmes como Em Busca do Ouro, O Circo, O Garoto, Luzes da Cidade, Tempos Modernos? Parece que lembrar Chaplin é como lembrar Griffith ou Méliès. Desnecessário, por óbvio.

Mais do que todos esses fundadores do cinema, Chaplin foi popular. Depois do sucesso do personagem Carlitos, tornou-se um dos homens mais conhecidos do planeta; talvez o mais conhecido e amado. Sabemos que o seu tipo famoso foi sendo construído aos poucos e nem sempre teve o formato que o celebrizou. Chaplin conta que tudo deve ao music-hall, e que tudo aprendeu com sua mãe, uma artista de talento embora problemática. O personagem foi tomando seus contornos até surgir com sua forma definitiva em O Vagabundo, em 1915. A partir daí ele pouco muda, até se metamorfosear em Hinckel, o tirano ridículo de O Grande Ditador, no qual Chaplin se rende ao cinema falado.

Dando uma olhada rápida na carreira de Chaplin, vemos que ele tinha razão ao repudiar os diálogos no cinema. O que vem depois de O Grande Ditador não é o melhor dele: Monsieur Verdoux, Luzes da Ribalta, Um Rei em Nova York, A Condessa de Hong Kong. Sua força telúrica vinha da mímica, a formidável expressão de rosto e corpo que fazia Carlitos “falar”, limitando a expressão verbal à forma mínima dos intertítulos.

Além disso, vindo da base popular da arte cênica, Chaplin sabia que o caminho para o coração do público se fazia pelo riso e pelas lágrimas. Dosava o humor e o drama, sem medo de flertar com o cômico deslavado ou com o piegas mais derramado. Dessa forma, e com sua mensagem humanista, encanta de gente simples a intelectuais – amplitude que é privilégio de raríssimos artistas.

Humanista sim, mas Carlitos é um militante, um ativista? Nada disso. Ele sofre, como operário de linha de montagem, o processo desumanizador das máquinas. Enreda-se nas engrenagens e, quando segura uma bandeira partidária o faz por puro descuido. Vai preso por engano. Não tem causas, mas é como se as causas confluíssem sobre a sua figura. Como dizia o crítico francês André Bazin, embora esteja claramente ao lado do homem, contra as máquinas, Carlitos não se situa no plano contingente da política, mas no nível mais duradouro da ética.

Carlitos não estava sempre do lado do povo, no sentido populista rasteiro. Mas o povo que ia aos cinemas estava sempre do lado de Carlitos.

 

(Texto escrito para acompanhar a reportagem sobre a exposição Chaplin, no Instituto Tomie Ohtake. Publicada no Caderno 2 de hoje)

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