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“Para fazer a revolução é preciso ser meio louco”

Luiz Zanin Oricchio

27 de março de 2009 | 09h02

Chega aos cinemas a primeira parte da cinebiografia Che, de Steven Soderbergh.

Na primeira parte da saga sobre a trajetória de Ernesto Guevara há uma cena significativa. Ernesto e Fidel conversam no México, às vésperas de embarcar no Granma para tentar a derrubada de Batista. Ernesto ouve que serão 82 pessoas num iate que comporta uns dez passageiros – apertados -, e Fidel (Demian Bichir) observa que, para fazer uma revolução, é preciso ser “un poco loco”. Mais tarde, no relato, Ernesto observa que, por paradoxal que pareça, uma revolução é um ato de amor. Segundo o crítico Eugenio Renzi, dos Cahiers du Cinéma, esses dois polos definem a ideia central de Soderbergh – a revolução depende tanto da paixão quanto de um pingo de loucura, e que a aliança de Fidel e Che só deu certo porque foram capazes de levar essa premissa às últimas consequências.

Pode-se, ou não, concordar com essa tese, mas ela ilumina tanto esta primeira parte de Che que entra agora em cartaz (O Argentino) como, em especial, a segunda (A Guerrilha, ainda sem data para estreia). Este segundo filme se passa anos depois da vitória da revolução. Quando Guevara lhe anuncia que vai deixar os seus encargos no governo para tentar a guerrilha na Bolívia, Fidel lhe responde: “Você que é o louco.” Há, nessa afirmação, um contraponto entre um filme e outro e que impede a leitura superficial do segundo como história de um fracasso. Pelo contrário, para ser coerente com sua opção de revolucionário, o Che teria de tentar exportar a revolução pelo continente. Mesmo contra toda expectativa de vitória e contra a opinião de Fidel, já solidamente instalado no conforto do poder. O Che era de outro estofo. E, novamente, goste-se ou não, se quisermos entender o personagem, temos de levar em consideração esse seu traço, digamos, quixotesco e mesmo sacrificial.

Em termos de cinema, essa primeira parte é de assimilação mais fácil, por ser o relato épico de uma vitória. Passando pelo encontro no México com os irmãos Castro, pela campanha na Sierra Maestra e a entrada em Havana, o relato é fluido, justo, com muito rigor histórico e cinematográfico. A busca do filme é pela credibilidade factual e pela verossimilhança artística. Contribui muito para o resultado a direção sólida de Soderbergh e um Benicio del Toro que se entrega ao papel com amor. E um grão de loucura.

(Caderno 2, 27/3/09)

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