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Para falar de Kevin *

Luiz Zanin Oricchio

26 Fevereiro 2013 | 10h06

Caso alguém aparecesse numa produtora de cinema com o enredo do menor de idade, que assume o disparo do sinalizador na tragédia de Oruro, não teria a menor chance de ser aceito. Jamais seu roteiro seria transformado em filme.

Por não ser verdadeiro? Não, por ser inverossímil. Quando as circunstâncias se encaixam de maneira tão certinha, uma peça na outra, movimentando mecanicamente a silenciosa engrenagem de isenção de responsabilidades, o roteiro parece artificial demais. O público não acredita. Abandona o cinema e exige o dinheiro do ingresso de volta.

Volto a dizer: pode ser que a verdade seja essa mesma, por improvável que pareça? Pode. Mas é preciso um esforço de imaginação, de tolerância, de boa fé e confiança ilimitada no outro para que faça sentido.

Ainda se o responsável, atormentado pela culpa, se apresentasse sozinho, vá lá. Mas ser levado pelo advogado da torcida organizada, que tem 12 dos seus membros detidos na Bolívia, já seria um pouco demais. E, lance final, ser o sujeito em questão menor de idade, com todas as atenuantes que a legislação brasileira garante a essa condição, bem, aí já é demais.

É possível que seja assim? Não sei. Devemos ouvi-lo. Todos têm o direito de apresentar sua versão e tentar mantê-la em pé. Inclusive o rapaz que assumiu a culpa e, escudado pelo advogado da torcida organizada, sustenta o seu lado dos fatos, por inacreditável que seja. A realidade não tem obrigação de ser lógica. A ficção, sim. Então, que se dê e ele o benefício da dúvida. Mas vamos ficar atentos à investigação que, esta sim, deve ir até as últimas consequências.

Afinal, em meio a essa teia intrincada de versões, detrás desse muro de palavras que se interpõe entre o que vemos e o que aconteceu no estádio do San Jose, subsiste um dado real, inarredável, pesado como chumbo em sua evidência. Qual é esse fato, que pesa toneladas sobre a consciência de todos e, desde já, empana o brilho desse torneio? A morte de Kevin Beltrán Espada, 14 anos. Não foi uma morte acidental nem foi uma fatalidade.Kevin não foi atingido por um raio ou desapareceu num terremoto; foi morto por artefato de fabricação humana, disparado por mão de homem. Kevin já não é deste mundo. Pertence à terra do nunca mais, aquela do poema de Poe. Never more. Não existe nada de tão concreto como a morte.

Os leitores me perdoem o tom lúgubre desta coluna, mas todos os que entendem o futebol como afirmação de vida estão um pouco assim. De luto. A começar pelos jogadores do Corinthians e o técnico Tite, que não têm nada a ver com isso e se encontram compreensivelmente chocados. E também a imensa maioria da torcida, composta por gente de bem, que ama seu clube e jamais pensaria em causar-lhe tamanho constrangimento. A eles, minha solidariedade.

Férias. Saio em férias por um mês e assim os leitores descansam durante quatro semanas. Volto dia 2/4, oxalá em novo clima e com essa história já esclarecida. Um filósofo disse que a verdade mora no fundo de um poço. Nem por isso podemos desistir de procurá-la. Devemos isso a Kevin.

* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão