Papillon e a ânsia de liberdade
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Papillon e a ânsia de liberdade

As comparações com o filme de 1973 são inevitáveis. Naquele tempo, sentíamos ânsia de liberdade, porque não a tínhamos. Hoje, a liberdade é um dado natural e não nos damos conta de que podemos perdê-la

Luiz Zanin Oricchio

05 Outubro 2018 | 13h20

Papillon 2018

 

A tônica das críticas ao novo Papillon, de Michael Noer, tem sido a comparação com o Papillon de 1973, de Franklin J. Schaffner.

De certo modo, comparações são inevitáveis quando se faz o remake de um filme famoso. Famoso apenas? Talvez mais do que isso.

Lembro que Papillon marcou época com Steven McQueen no papel principal e Dustin Hoffman no de Louis Dega, seu amigo e colega de infortúnio. Nunca o revi, mas lembro que era empolgante.

E o livro de Henri Charrière também. Alguém me deu de presente quando eu estava em uma cama de hospital, vítima de um acidente de carro. Não sei se a saga de um homem aprisionado num lugar chamado Ilha do Diabo é  leitura ideal para um doente. Só sei que grudei no livro (um catatau de umas seiscentas páginas) e não me descolei dele ao longo da convalescença.

Papillon 1973

Não sei dizer se foi um grande sucesso de bilheteria no Brasil. Consulto o site IMDb e vejo que ele custou US$ 12 milhões e faturou US$ 56 milhões nos Estados Unidos. Senhor lucro. Aqui, não sei e nem imagino se é possível descobrir. Só sei que não se falava em outra coisa, pelo menos em meu meio social, de estudante universitário – uspiano, ainda por cima.

Palavra por palavra: simpatizamos com Papillon por sua fome insaciável de liberdade.

Nem é preciso explicar por que a liberdade era palavra tão preciosa para todos nós: não a tínhamos, vivíamos sob uma ditadura militar.

Por isso, talvez, o filme tenha marcado época e se tornado inesquecível, por essa questão simbólica e tão premente – a de que a liberdade é um bem tão precioso que vale a pena arriscar a vida para obtê-la.

Hoje a conversa é outra. Depois da redemocratização, encaramos a liberdade como algo a que temos direito, como o ar que se respira. Um dado natural. A maior parte da população brasileira ignora o que significa perdê-la. Não tem ideia do que seja desconfiar de um desconhecido que puxa conversa com você na rua, porque pode ser um informante da polícia. Não sabe o que significa omitir opiniões porque estas podem conduzi-lo para a prisão – ou coisa pior. Não se sentem ameaçados como nós, que a perdemos durante um longo período de nossas vidas, nos sentimos. Hoje, muita gente ingênua acha bom negócio trocar a liberdade por segurança, sem ter a mínima ideia do que isso implica.

Bem, isso para dizer que o novo Papillon, o de Michael Noer, com Charlie Hunnan como Charrière e Rami Malek como Louis Dega, não deve ter o mesmo impacto emocional do primeiro. Nem pode, dadas as diferenças de contexto entre o filme de 1973 e este, de 2018.

Vejo esta nova versão como mais leve que a anterior – e também em relação ao livro. Neste, em particular, há descrições pesadíssimas de torturas e maus-tratos na prisão francesa. Noer não se desvia desse tema particular, mas penso que o suaviza visualmente para não chocar o espectador contemporâneo. Coloca sua ênfase na ação, mesmo porque o filme de Schaffner era mais reflexivo. Há uma diferença de ritmo e andamento entre um e outro.

O Papillon atual não é mau filme. Pelo contrário: entendo que seja muito bom. Assisti-o com o maior interesse e me parece que Dunnan interpreta muito bem seu personagem, inclusive com o esforço físico do emagrecimento, o olhar de fogo, obstinado, a energia, etc. Bem convincente.  E tocante. 

No entanto, aposto que daqui a pouco já o teremos esquecido. E, daqui a uns cinco anos, quando se for falar em Papillon, o de 1973 será a nossa referência e não este atual, muito bom, muito bem filmado e interpretado, mas que não guarda as mesmas ressonâncias simbólicas da primeira versão.

Um filme é ele e seu tempo.

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