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Papéis velhos: uma antiga entrevista com Guillermo del Toro

Luiz Zanin Oricchio

01 de fevereiro de 2007 | 16h14

Amigos, minha companheira Maria do Rosário Caetano exumou em casa um disquete e nele havia uma antiga entrevista minha com Guillermo del Toro, que agora concorre a vários Oscars com O Labirinto do Fauno. Conversei com ele há uns 10 ou 12 anos, no Rio, quando trouxe um filme esquisito, Cronos, para participar do festival da cidade. Era, então, um total desconhecido no Brasil. Dêem uma lida, se tiverem tempo. Vale como curiosidade. E antiguidade.

O cineasta mexicano Guillermo del Toro tem toda a pinta de um bon vivant. Ao contrário dos seus colegas mais engajados, veio para o encontro Cinema Latino-Americano: os Próximos Cem Anos com expressa vontade de se divertir. Numa manhã de muito sol no Rio, tinha pressa em sair para a praia e ver as chicas. Mas acabou concordando em falar com o Caderno 2, antes de ir bater perna na areia de Copacabana.

Toro trouxe um filme que é bem parecido com ele. Cronos é uma história de vampiro com muito senso de humor, esteticamente parecida com o novo cinema publicitário francês (Marc Caro é influência assumida) e alguma escatologia. No papel principal, o argentino Federico Lupi (de Um Lugar no Mundo e Mi Querido Tom Mix) encontra um misterioso dispositivo inventado por um alquimista medieval e passa a aspirar à vida eterna. Com funestas conseqüências, como verá o espectador brasileiro, caso o filme seja comprado por alguma distribuidora.

Caderno 2 – Como se deu seu aprendizado em cinema?
Guillermo Toro – Bem, eu tinha essa idéia de fazer Cronos e então fui estudar efeitos especiais nos Estados Unidos. Isso porque no México não havia ninguém que pudesse fazê-los. Abri uma firma chamada Necropia. Que teve a exata duração da feitura do filme. Quando terminei Cronos, fechei a firma pois fui à falência.

Caderno 2 – Cronos é seu primeiro longa. Já tinha feito alguns curtas?
Toro – Dez curtas. E todos eles de terror, dessa forma de horror msiturado com humor que é o meu universo familiar.

Caderno 2 – O México é um país que tem certa fama de morbidez. Isso é o que você tenta colocar em seus trabalhos?
Toro – Como eu disse na apresentação de Cronos: o filme é produto da minha imaginação. Tenho um cérebro meio estranho, mas não tão estranho quanto é meu país.

Caderno 2 – Isso é um plano de uma estética geral, vamos dizer assim. Mas como você teve a idéia para esse filme em particular?
Toro – Bem, eu cresci vendo filmes de vampiros. Filmes americanos. Então pensei: por que não criar um vampiro mexicano, triste, patético, comovente? Era uma forma de assumir uma determinada tradição, mas trabalhando nela pelo avesso. Assim, como você viu, todos os maus personagens em Cronos são americanos. Para os americanos os bad guys sempre foram os outros — índios, chicanos, negros. Pois bem, no meu filme são os gringos que fazem os papéis de homens maus.

Caderno 2 – Muita gente acha que Federico Lupi é um dos mais completos atores do continente. Como você chegou a ele?
Toro – Tinha visto seu trabalho em Os Últimos Dias da Vítima, de Adolfo Aristarain. Nesse filme, Lupi passa a maior parte do tempo em silêncio. Transmite tudo pelo olhar. Um ator completo. Achei que só ele poderia dar dignidade e humanidade a um personagem como o meu vampiro. Alguém que é super carinhoso com a netinha, mas ao mesmo tempo rejuvenesce e se torna sedutor e viril. Depois decai, torna-se um zumbi e começa a ficar putrefato. A platéia precisa se identificar com seu drama. Ao mesmo tempo rir com o humor de certas situações. É preciso um grande ator para passar todos esses matizes. Escrevi o roteiro pensando em Lupi. Não saberia fazer com outra pessoa.

Caderno 2 – Cronos foi bem de público no México?
Toro – Deu algo como 750 mil espectadores, o que não é nada mau nos dias de hoje.

Caderno 2 – O filme se pagou?
Toro – Olha, ele custou cerca de US$ 2 milhões. Como trabalhei muito com pré-vendas, acabei tendo prejuízo. Mas quem o comprou, lucrou com ele. Não eu, que só fiquei com um montão de dívidas para pagar.
Caderno 2 – Como você arrumou financiamento para fazer o filme?
Toro – Empenhei um apartamento. Também levantei grana com pais, parentes próximos e distantes, alguns amigos, muitos dos quais hoje são ex-amigos.

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