Papas
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Papas

Luiz Zanin Oricchio

11 Fevereiro 2013 | 20h18

 

 

Michel Piccoli

A notícia movimentou a segunda-feira morna de carnaval: Bento 16 vai renunciar, e até já tem data para deixar o Vaticano. Diz que a idade e a saúde frágil já não permitem o desempenho de suas funções. Cabe-nos respeitar. A decisão é raríssima – acontece pela primeira vez desde o século 15. 

Boa ocasião, portanto, para rever um filme extraordinário, sobre uma situação não idêntica mas parecida, a do papa que não deseja assumir o trono de Pedro. Habemus Papam é o filme de Nanni Moretti, um dos melhores do ano passado e, na humilde opinião deste que vos escreve, o melhor. Abaixo, reproduzo o texto escrito quando do seu lançamento comercial:

 

O Vaticano já foi cenário de coisas pouco santas, como as intrigas da Guerra Fria em As Sandálias do Pescador, ou mesmo palco de crimes hediondos, como na terceira parte de O Poderoso Chefão, em que um papa é assassinado. Nunca, no entanto, serviu de cenário para a humanização maior de alguém ungido pela infalibilidade como neste Habemus Papam, de Nanni Moretti.

Como a Igreja não gosta que mexam com seus mitos sagrados, alguns religiosos protestaram contra Moretti, assim como fizeram com o muito mais inofensivo O Código da Vinci. No caso de Habemus Papam, a Igreja, do seu ponto de vista é claro, até que tem certa dose de razão. Isso porque o filme, se por um lado pode ser visto de maneira um tanto superficial apenas como uma comédia dramática às vezes divertida e outras vezes tocante, no fundo traz um veio crítico nada desprezível.

A história é a de um conclave, reunido para escolher o novo papa depois da morte do anterior. Penetrar na pompa desses bastidores eclesiásticos, com toda a força das imagens, é um dos méritos de Moretti como diretor experimentado, no auge de sua capacidade formal. A força das imagens é tamanha que mesmo leigos talvez fiquem impressionados com a religiosidade que delas emana.

O efeito é grandioso, porém enganador, porque Moretti, sábio e astuto como apenas um artesão de longa prática sabe ser, começa logo a movimentar as peças que corroem a engenhoca cerimonial por dentro. A principal delas, uma fina ironia que faz com que toda pompa e circunstância comecem a parecer irrisórias. Risíveis, no limite; mas é bom que se diga que a delicadeza do diretor não lhe permite uma galhofa irresponsável. Sua estratégia é apenas, digamos assim, descorar um pouco a púrpura dos cardeais e desidratar-lhes a postura demasiado composta. Em uma palavra, ele humaniza os sacerdotes evidenciando suas fraquezas, ciúmes, desejos de poder, tédio e medo. Durante a votação, alguns rezam para não serem eleitos, tendo por cenário nada menos do que os afrescos da Capela Sistina, onde se dão os debates.

A aplicação dessa estratégia de desmistificação se dá sobre todos os personagens, de maneira geral, mas é ainda mais intensa sobre o protagonista, o cardeal francês que, para sua surpresa, acaba eleito por seus pares para ocupar o trono de Pedro. Aceita, mas a responsabilidade lhe pesa demais e não consegue ir à sacada da residência papal, na Praça São Pedro, em Roma, para saudar a multidão de fiéis. Um psicanalista ateu (o próprio Moretti) é convocado para ajudar o novo papa a vencer a sua inibição.

Falar de tudo isso é muito simples, e a “trama” não deixa de ser de uma facilidade extrema. Um homem aceita um cargo e, ato contínuo, descobre-se incapacitado para assumir. Tivesse ele um emprego comum e daria um passo atrás, sem qualquer problema. Renegociaria a sua promoção ou, no limite, pediria demissão da empresa e iria repensar a vida num resort no sul da Bahia, digamos. Fica mais difícil para um papa fazer a mesma coisa. Não apenas pela expectativa despertada em milhões de pessoas de todo o mundo, mas porque, ao aceitar, seu nome se reveste da aura santa da infalibilidade. Ora, como conciliar o poder do infalível com a fragilidade extrema do homem? Fica difícil. E, dessa contradição, nasce uma situação dramática pouco comum.

Por outro lado, a veia cômica de Moretti faz com que a dramaticidade da situação seja temperado por um humor de primeira, refinado e nunca óbvio. Ele próprio faz o psicanalista também cheio de problemas com sua mulher e que deverá consertar a cabeça do novo pontífice. Para isso, deverá permanecer no interior do Vaticano, junto com os cardeais do mundo inteiro durante tempo indeterminado. Não saem por uma questão de segurança. O mundo não pode saber do drama íntimo que está se passando no interior dos muros sagrados. E, desse modo, Moretti terá a ideia de proporcionar aos seus colegas cardeais algum tipo de entretenimento, para passar o tempo. O espectador verá por si mesmo em que consiste essa diversão terapêutica.

Tudo é muito bom em Habemus Papam, do roteiro imaginativo às imagens excepcionalmente bem construídas por Moretti. Mas, se tivermos de observar o filme em seus elementos, nada supera a interpretação marcante de Piccoli, patético e intenso, em sua pungente humanidade de alguém escolhido para uma tarefa acima de suas forças. Deve-se dizer que o filme, sendo de Moretti, atira também em outras direções. O da fábula da moral psi: como submeter à psicanálise, técnica baseada na sinceridade mais completa consigo mesmo, alguém cuja subjetividade é vigiada por toda a estrutura eclesiástica? Fábula de moral política: num mundo em que todos, de alguma maneira, desejam o poder, como considerar alguém que o recusa? Fábula do absurdo: por que não envolver toda a comunidade eclesiástica num animado torneio de vôlei enquanto os pilares do seu mundo bambeiam?

Essas propostas distintas, por vezes contraditórias, entre o riso, a reflexão séria e a compaixão humana, se entrechocam e se comentam neste brilhante Habemus Papam.

 

Tramas vaticanas

As Sandálias do Pescador (1968), de Michael Anderson, baseada no best-seller de Morris West. No quadro da Guerra Fria, um antigo prisioneiro político da União Soviética (Anthony Quinn) é eleito papa, como última esperança de impedir uma guerra nuclear entre as superpotências.

O Poderoso Chefão 3 (1990), de Francis Ford Coppola. Na sua tentativa de legalizar a família Corleone, Michael (Al Pacino) enreda-se cada vez mais com o crime organizado internacional. Culmina com o assassinato do papa João Paulo I num complô envolvendo a máfia siciliana, o Banco Ambrosiano e a loja maçônica P2.

O Código da Vinci (2006), de Ron Howard, baseado no romance de sucesso internacional de Dan Brown. A história reconstrói uma trama conspiratória, com palco de ação no museu do Louvre, que culmina na revelação de um “segredo” sobre a vida de Jesus: ele teria se casado e tido filhos com Maria Madalena. A Igreja recomendou o boicote dos fiéis ao filme.

Nanni Moretti

Nanni Moretti (1953) está na primeira linha do cinema italiano contemporâneo, com seus filmes engajados, irônicos e críticos da política de seu país. Não é também a primeira vez que examina a questão religiosa, muito presente na Itália: em 1985 fez La Messa è Finita (A Missa Acabou) em que interpreta um sacerdote jovem. Palombella Rossa (1989) já é uma obra de conteúdo explicitamente político. Em Caro Diário (1993), Moretti faz como que um documentário de si mesmo, em primeira pessoa e dividido em três episódios. Num deles, narra uma grave doença da qual foi vítima. Com O Quarto do Filho (2001), comovente drama sobre a morte de um menino, vence a Palma de Ouro em Cannes. Adversário ferrenho de Silvio Berlusconi, satiriza o ex-premiê italiano no impiedoso O Crocodilo (2006). Nanni tem um cinema no bairro do Trastevere, em Roma, o Nouvo Sacher, destinado ao cinema de autor. É também produtor. É dele a produção de César Deve Morrer, dos irmãos Taviani, vencedor do Urso de Ouro no recém-encerrado Festival de Cinema de Berlim.