Panorama do Cinema Mundial
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Panorama do Cinema Mundial

Luiz Zanin Oricchio

03 de dezembro de 2007 | 13h21

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A turma do Equipe em ação

Amigos, passei o fim de semana inteiro ocupado com o seminário Panorama do Cinema Mundial, que aconteceu o Reserva Cultural, lá na Paulista, organizado pela Rosário. Foi uma maratona que, durante dois dias, reuniu 25 palestrantes, falando sobre o cinema de 26 países.

O tema de fundo, praticamente constante: como os cinemas nacionais podem sobreviver diante da ameaça de hegemonia de Hollywood? Como preservar a “biodiversidade” cinematográfica mundial? Vasto tema, que não dá margem a respostas simplistas. Mas, pelos exemplos colhidos, fica uma constante: sem uma política cinematográfica consistente, nada feito.

O nível dos painéis foi ótimo, aprendi muito durante o seminário. Gostaria de destacar o grupo de alunos do Colégio Equipe, que fez uma ótima comunicação sobre o cinema tailandês. Prova de que o nível desse colégio, onde estudei por um ano quando era apenas cursinho para vestibular, continua de primeira. Parabéns a eles. Abaixo, transcrevo o texto que escrevi como preparação para a minha comunicação sobre o cinema da França. Ah, sim, os palestrantes foram convidados a escrever um texto prévio, que serão publicados no próximo número da revista Reserva Cultural. Se você perdeu o seminário, procure a revista, que sai em breve. No Reserva rola uma mostra com filmes sugeridos pelos palestrantes. Veja no site

seminario

Foto de alguns participantes do seminário. Estou em boa companhia: entre Rosário e Walnice Nogueira Galvão.

Cinema na França

A França é um dos poucos países do mundo que conseguem manter uma forte posição de mercado, mesmo diante da potência comercial de Hollywood. Segundo dados do Atlas da Cahiers du Cinéma (maio de 2007), no ano anterior essa proporção foi de 44% dos ingressos vendidos para filmes nacionais contra 56% para estrangeiros.

Os números globais do cinema na França em 2006 parecem fulgurantes: 188,4 milhões de ingressos vendidos (para uma população de 61 milhões de pessoas) e 164 filmes de longa-metragem produzidos. A própria Cahiers admite que, embora o número de longas tenha diminuído em relação a 2005 (187 filmes), a indústria cinematográfica francesa continua funcionando a todo vapor.

Deve-se dizer que essa máquina trabalha abastecida por diversas fontes de financiamento, fundos gerenciados pelo CNF (Centre National de la Cinématographie), para o qual confluem impostos sobre os ingressos, sobre as cadeias de televisão, homevideo e até sobre os fornecedores de acesso à internet. Certamente, se o governo brasileiro propusesse sistema semelhante (como de fato propôs, no caso da Ancinav) o mundo viria abaixo. Seria tachado de voracidade fiscal, centralizador e dirigista.
No entanto, esses números favoráveis não escondem um certo mal-estar com o funcionamento do sistema. Como, por exemplo, o fato de que boa parte da estatística favorável vir de alguns poucos blockbusters nacionais, sem valor artístico comprovado, como Les Bronzés, com seus 10 milhões de ingressos vendidos, e Arthur e os Minimoys, operação-marketing bem sucedida do “hollywoodiano” e midiático Luc Besson.

O dedo na ferida foi colocado pela diretora Pascale Ferran, que no discurso de agradecimentos pela fieira de Césars recebidos por seu belíssimo Lady Chatterley, disse que havia levado 12 anos para conseguir rodar esse filme baseado em D.H. Lawrence, e que nem tudo ia tão bem como se acreditava no cinema do seu país. O desabafo teve grande repercussão.
A Cahiers concorda com a observação de Pascale, lembra que a vida se torna cada vez mais difícil para os projetos pouco comerciais mas que, mesmo assim, o ano de 2006 deveria saudar o inesperado sucesso de público de filmes de “ensaio e arte”, como A Comédia do Poder, de Claude Chabrol, que fez 1 milhão de espectadores. Quand j’Étais Chanteur, de Xavier Giannoli, beirou o milhão de entradas e a comédia OSS 117, de Michel Hazavanicius, levou 2,3 milhões de pessoas às salas. Como nem tudo se conta em números, esse sistema também permitiu a estréia em 2006 de filmes como Medos Privados em Lugares Públicos, de Alain Resnais, Flandres, de Bruno Dumont, L’Intouchable, de Benoît Jacquot, e Ces Rencontres avec Eux, do casal Jean-Marie Straub-Danièlle Huillet – além do próprio Lady Chatterley, de Pascale Ferran.

A mescla de filmes de grande público com outros de empenho artístico dá a força e a liga de uma cinematografia.

Existe um outro dado de força do cinema francês, que aparece numa entrevista concedida à Cahiers (outubro/2006) por Véronique Cayla, diretora-geral do CNF. Entre outras considerações, ela diz que o ano de 2005 deve ser saudado como aquele em que, provavelmente pela primeira vez na história, houve mais espectadores estrangeiros do que franceses para o cinema francês. Isso quer dizer que o cinema do país se porta bem no mercado global, requisito imprescindível no mundo contemporâneo.

Algumas observações devem ser feitas também quanto à exibição. Há uma prática européia em diversas modalidades de entretenimento, que abrange do futebol ao cinema, e que consiste na fidelização do público através de assinaturas, prática pouco corrente no Brasil.

Em Paris, paga-se por um bilhete individual de cinema de 7 a 10 euros, conforme a sala, bairro, horário, sessão, se é uma estréia ou uma reprise, etc.

No entanto, as duas maiores redes de salas do país, a UGC e MK-2, lançaram suas cartas de assinaturas. Por 19,80 euros ao mês (mínimo de um ano e despesas de emissão de 30 euros), a pessoa pode comprar a carta UGC e MK-2 Illimité, com acesso a todas as salas da rede, e mais parceiros, quantas vezes quiser, em qualquer sessão, para o filme que tiver vontade. A carta para duas pessoas que costumam ir juntas ao cinema sai por 35 euros ao mês.

Juntas, a UGC e MK-2, ex-concorrentes agora aliadas nessa iniciativa, detêm mais de 50% das salas do mercado parisiense, o que já leva a acusações de duopólio. O concorrente direto passou a ser a outra rede, a Euro Palaces. A carta da UGC-MK-2 dá aos assinantes acesso a 236 salas em Paris, 528 na França e mais 216 salas em cidades do exterior, como Madri, Roma e Bruxelas.

A associação dos dois gigantes, se trouxe benefícios ao público, não deixa de inquietar certos setores. Karmitz, um dos proprietários, disse que os cinemas independentes não têm por que se inquietar, pois podem aderir ao sistema sem qualquer problema ou despesas, passando a aceitar as cartas de assinaturas em suas bilheterias. “Continuarão a existir e poderão inclusive se desenvolver com essa adesão”, afirma Karmitz.

Nem tudo é unânime, no entanto. Se o sistema de assinaturas não parece algo contestável em si, a aliança entre UGC-MK2 desperta ainda temores. A associação detém nada menos que 44% das telas de Paris. O Centre National de la Cinématographie considera “forte” essa posição dos dois grupos, mas não ilícita. E o sistema de “assinatura ilimitada” obteve permissão para funcionar até março de 2009, por 20 meses. Passado esse período, será reavaliado.

Entre os descontentes, o Bloc (Bureau de Liaison des Organisations du Cinéma) se preocupa com a falta de transparência da associação entre as duas redes. Pede ainda que sejam publicados dados estatísticos e um estudo sociológico sobre o impacto das cartas de assinatura na transformação do perfil do público nas salas. Também preocupada está a Societé des Auteurs e Compositeurs Dramatiques em torno da questão dos direitos autorais. Não apenas com a questão da arrecadação dos direitos no sistema de remuneração pelas cartas de assinatura, mas pelo que classifica de “prática anti-concorrencial”, colocando distribuidores à mercê de um único explorador.

Como o sistema de assinaturas é recente, não se conhecem ainda suas conseqüências práticas.

O fato é que os exibidores não se cansam de estimular a freqüência às salas. Na rentrée de setembro, houve promoção pela qual pagava-se por um ingresso e levavam-se dois, pelo preço normal. Outra prática é a do debate com os realizadores dos filmes que estreiam, interessante para aproximar os cineastas do público. Em geral acontecem no primeiro fim-de-semana do lançamento. Os filmes em Paris estréiam às quartas-feiras e esses debates são marcados para os sábados, nos próprios cinemas, após a exibição. Foi assim com o diretor Nicolas Klotz quando lançou seu polêmico La Question Humaine e Isild Le Besco, a jovem realizadora de Charly.

Em que pesem os problemas e controvérsias, o cinema francês se mantém em boa posição, tanto dentro de casa como no exterior. Isso não se dá por acaso ou pela mão invisível do mercado. Reflete uma política pensada para cada passo da cadeia produtiva cinematográfica.

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