Painel completo do universo estético e político de Sokurov
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Painel completo do universo estético e político de Sokurov

Luiz Zanin Oricchio

22 de maio de 2013 | 11h09

 

Fundamental essa Mostra Sokurov do Centro Cultural Banco do Brasil (R. Álvares Penteado, 112; 3113-3651), que apresenta a filmografia completa de um dos mais importantes (e raros) artistas do cinema contemporâneo.

Poeta Visual traz 30 filmes, incluindo todos os longas de ficção de Alexander Sokurov e mais seus curtas e documentários, alguns desconhecidos por aqui. Os filmes de ficção incluem os quatro que se tornaram os mais conhecidos entre os cinéfilos e compõem a chamada Tetralogia do Poder – Moloch, Taurus, O Sol e Fausto. Há também a sua proeza técnica de Arca Russa, filmada num único plano sequência no interior do Museu Hermitage, em São Petersburgo.

Tematicamente, devemos destacar aquela que parece ter sido a preocupação principal de Sokurov, o poder e seus desmandos. Moloch fala de Hitler, Taurus, de Lenin, O Sol, de Hirohito. E Fausto, com o qual ganhou o Leão de Ouro de Veneza em 2011, não fala de uma figura histórica real, mas de uma lenda, imortalizada na literatura por Goethe, e que resume o delírio do poder de todos os tempos e países.

Estilisticamente, vemos em Sokurov um discípulo do grande Andrei Tarkovski. Busca imagens poéticas, jamais banais, como se procurasse, através da intensificação visual, dar ao cinema o poder de um instrumento de acesso ao real superior ao da nossa visão ordinária. Enxergamos sem ver, e o cinema procura ir além da superfície. Daí seu registro não ser nunca “realista” mas às vezes aparecer como envolto numa névoa, ou numa coloração pouco usual. Como se quisesse devolver ao mundo e aos personagens uma espessura perdida, uma profundidade esquecida. No mundo da simplificação, busca a complexidade.

Não de maneira isenta, é claro. As imagens trazem consigo a cultura do realizador e também as posições políticas. O fato de colocar Lenin na mesma série de Hitler e Hirohito indica o que pensa da antiga URSS. Mais sintomático ainda é Arca Russa, belíssima proeza técnica que não esconde sua nostalgia aristocrática e europeizante. Mas é lógico que se limitar ao campo ideológico seria reduzir a experiência estética à política, o que é tão inconsistente quanto separar essas duas dimensões.

O universo das relações afetivo-familiares tampouco é estranho a Sokurov. Essa dimensão humana está expressa em dois belos e impactantes filmes Pai e Filho e Mãe e Filho – duas peças especulares sobre essa dimensão da família, essa estranha viagem através da carne, de que fala Carlos Drummond. Nessa visão impressionista da relação entre pais e seus filhos há a costumeira aproximação impressionista de Sokurov temperada ainda pelo toque chekhoviano da intimidade.

Enfim, há muito a descobrir nesta mostra, em especial os filmes de pouco trânsito no Brasil. Alguns títulos que parecem imperdíveis? A Pedra, cuja narrativa mostra Chekhov, redivivo, em diálogo com o guardião do museu dedicado ao escritor. O Segundo Círculo, cujo tema é a perda da referência que tínhamos nos antigos rituais. Ganhou o Prêmio da Fipresci (a associação internacional dos críticos) em Roterdã. Há outros, um mundo a ser explorado.

 

Tudo o que sabemos sobre:

Alexander Sokurovcinema russo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.