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Ouro de tolo *

Luiz Zanin Oricchio

30 Abril 2013 | 11h17

Sem trocadilho: o ouro representa um excelente filão e costuma render pepitas preciosas nas telas, desde os tempos do cinema mudo. Mas o veio, riquíssimo, ainda é quase inexplorado entre nós. Ou era. No recém-encerrado festival de documentários É Tudo Verdade, um dos grandes sucessos de público foi justamente Serra Pelada – a Lenda da Montanha de Ouro, do diretor Victor Lopes. Além do mais, um novo filme de ficção está sendo preparado, com o simples nome de Serra Pelada, pelo cineasta Heitor Dhalia (de Nina e O Cheiro do Ralo, entre outros). Está em fase de finalização e tem lançamento agendado para o segundo semestre de 2013.

Se o Brasil chega com atraso a essa mina, no âmbito do cinema internacional o tema não é novidade, pois a febre do metal amarelo sempre rendeu excelentes histórias. É assunto de alguns clássicos como Em Busca do Ouro, de Charles Chaplin, Ouro e Maldição, de Eric Von Stroheim, O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston. E – para ser mais, digamos assim, pop – quem não se lembra de um dos melhores 007s da primeira safra, com Sean Connery no papel do agente com licença para matar, 007 contra Goldfinger?

O curioso é a existência de um subtexto mais ou menos comum a todos esses filmes, tão diferentes entre si, o de que a febre do ouro é ilusória. Que o metal amarelo, tão cobiçado por seu valor, acaba levando à ruína, à loucura, à destruição e mesmo à morte. Raramente o caçador de ouro é recompensado, ou termina bem seus dias. Ele é vítima da própria ganância e termina a aventura tão pobre como começou, senão pior ainda.

Em Busca do Ouro (1925) traz o famoso vagabundo, interpretado por Charlie Chaplin, participando da célebre corrida à fortuna no Alasca, no final do século 19. Em busca de um assunto para seu filme seguinte, Chaplin deparou-se com essa história de conquista rápida da riqueza, que fez muitas vítimas. E espantou-se com uma passagem trágica, em particular, entre tantas outras que fizeram o folclore do Alasca. Mineiros de uma expedição perderam-se na neve e, sem alimentos, desesperados de fome e frio, praticaram atos de canibalismo. Chaplin sacou que esse era o viés a ser seguido: a fome. Em meio à busca da fortuna, a luta pela elementar sobrevivência física. E tratava-se de assunto infelizmente muito familiar para quem havia tido a infância miserável na Inglaterra. Chaplin, se sabe, poderia ter sido um personagem de Dickens, tamanha sua miséria. De modo que o desafio era unir drama e graça, coquetel que Chaplin temperava como ninguém. Do filme, ficaram famosas algumas cenas, além da encantadora dança encenada com dois pãezinhos espetados em garfos. Uma delas é a de um parceiro de Chaplin, Big Jim, que, atormentado pela fome, começa a delirar e vê no amigo… uma saborosa e gigantesca galinha. Outra em que Chaplin e o mesmo Big Jim, sem nada para comer, preparam e devoram uma das botas do vagabundo – com cadarços e tudo.

Outro clássico, aliás quase contemporâneo ao de Chaplin, é Ouro e Maldição (1923), de Erich von Stroheim, drama naturalista feito sem nenhuma concessão pelo diretor austríaco. Tão obcecado quanto seus personagens, Stroheim quis impor aos produtores uma versão com quase nove (!) horas de duração. A MGM cortou-lhe as asas e a cópia, que ficou com cerca de duas horas. Mas algumas cinematecas ainda mantêm em seus depósitos cópias da versão integral. Ou de outras, mais “abreviadas”, com cerca de quatro horas.

A história, adaptada de um romance de Frank Norris, Mc Teague, é terrível. O personagem título (interpretado por Gibson Gowland) é um gigante sentimental que trabalha numa mina de ouro e vive na penúria com a mãe. Trabalha com um dentista, apaixona-se por uma mulher delicada. Mas esse amor e a cobiça o levam à ruína. As cenas finais são das mais expressivas e pungentes de toda a história do cinema. Dois homens, atados a uma fortuna e algemados um ao outro, agonizam no Vale da Morte. Nenhum lugar para o riso, aqui. Apenas o caráter letal da cobiça, de que fala o seco título original – Greed.

O Tesouro de Sierra Madre (1948) é outro desses grandes filmes que escavam o veio do ouro e sua ligação íntima com a ganância humana. John Huston põe em cena três garimpeiros, aos quais se une um quarto (vivido por um magnífico Walter Huston, pai do diretor) em busca da fortuna depositada na montanha. Também é baseado num romance, este de B. Traven, prova de que a literatura não bobeou e explorou o tema com a profundidade merecida. Dobbs (Humphrey Bogart), Curtin (Tim Holt) e Cody (Bruce Bennett) compõem a trinca que prospecta ouro e o descobre. A partir de então, passam a desconfiar uns dos outros. Howard (Walter Huston) é o mais velho e o mais sábio. Depois de muita encrenca, prefere ficar morando num vilarejo mexicano, onde é respeitado e feliz. O desfecho é moral: o ouro, que viera do pó do deserto, ao pó retorna. Ashes to ashes – como nas palavras das Escrituras e na canção de David Bowie. Ouro é morte, nesses grandes filmes de Stroheim e Huston. Ou fome, como no de Chaplin.

Também não é boa coisa numa obra mais de entretenimento que de reflexão como 007 Contra Goldfinger, terceira aventura de James Bond estrelada por Sean Connery (sob direção de Guy Hamilton). O homem fissurado em ouro é o vilão, parodicamente chamado de Auric Goldfinger (Gert Froebe). Ele especula com o metal nos mercados internacionais e alimenta o plano delirante de invadir a fortaleza de Fort Knox, nos Estados Unidos, onde estão depositadas as reservas de ouro do país, para tornar radioativo o metal com uma bomba de cobalto, inviabilizando seu uso e valorizando assim as reservas do próprio Goldfinger. A relação com o ouro é sensual. Goldfinger mata uma linda capanga que o traiu com Bond pintando seu corpo nu com tinta dourada. O filme é animado e engraçado – como eram os 007s da primeira safra, antes de se renderem ao cinema de ação e efeitos especiais sem nenhuma inspiração.

Já o nosso Serra Pelada – a Lenda da Montanha de Ouro, com seu viés documental, preso à realidade, flagra a maior corrida brasileira ao ouro pelo ângulo do drama. É um documentário bastante abrangente. Conversa com garimpeiros, especialistas e até mesmo com o militar Sebastião “Curió”, designado pelo governo militar para ordenar o garimpo. E cujo apelido batiza a cidade dos mineradores – Curionópolis. Segundo ele, ideia dos próprios garimpeiros. Curió teria sido encarregado da missão pelos bons serviços prestados anteriormente na repressão à Guerrilha do Araguaia.

O documentário mostra a importância estratégica que teve o garimpo de Serra Pelada. Oficialmente, foram retiradas 30 toneladas de ouro. Dizia-se, na época, que o mineral daria para pagar a dívida externa brasileira, bastante considerável na ocasião. A febre do ouro moveu, acredita-se, mais de 100 mil pessoas que por lá passaram em diferentes épocas. A montanha foi escavada impiedosamente, transformando-se na paisagem lunar imortalizada em fotos de Sebastião Salgado. Hoje, a antiga cava transformou-se num lago de 100 metros de profundidade. Mas os aventureiros não desistem. O documentário ouve antigos garimpeiros, aqueles dos bons tempos, e eles garantem que o grosso do ouro ainda está todo lá. Basta cavar, cavar, cavar… e ter sorte. Muitos continuam buscando. E há mesmo uma prospecção industrial na região, disposta a perseguir novos veios do metal. Onde o ouro um dia aflorou, a febre não baixa.

Para não dizer que o Brasil deixou até hoje passar por completo esse tema, em 1982 Os Trapalhões, responsáveis por algumas das maiores bilheterias do cinema nacional, lá estiveram. Os Trapalhões na Serra Pelada, dirigido por J. B. Tanko, é até hoje, a décima maior bilheteria de todos os tempos do cinema nacional. Levou nada menos que 5 milhões de espectadores às salas.

Talvez o novo Serra Pelada aspire a sucesso semelhante. É uma superprodução, realizada em parceria com a Warner e a Globo Filmes com um ator como Wagner Moura (o Capitão Nascimento de Tropa de Elite 1 e 2) no elenco. A história é a de dois amigos, Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Julio Andrade) que, em 1980, saem de São Paulo em direção ao Pará em busca do sonho do ouro. É também uma história de cobiça, de luta pelo poder e de como os homens podem ser levados à destruição pela ganância. O diretor Heitor Dhalia confirma que se inspirou mais em histórias reais do que nas obras de ficção: “As histórias contadas são incríveis. Ninguém ficou rico de verdade. E são muitos os casos de pessoas que perderam tudo. O ouro de Serra Pelada é o canto da sereia, que te seduz, te convida para uma aventura”.

De qualquer forma, Dhalia acha inevitável passar por alguns desses filmes citados, mesmo porque eles fazem parte do acervo cinematográfico mundial. Nos influenciam mesmo quando não pensamos neles. Mas há essa particularidade, o toque nacional: “Serra Pelada foi a corrida do ouro brasileira, amazônica. Tem um elemento pulsante nisso. Era um Velho Oeste violento e, ao mesmo tempo, divertido”. Desse modo, Dhalia pode dizer que sua principal fonte de inspiração não foram os filmes ou livros que leu, mas as pesquisas que fez in loco e as longas conversas com velhos garimpeiros.

Aliás, quem assistiu a Serra Pelada, o documentário de Victor Lopes, sabe que algumas dessas conversas são ouro em pó. Ouro de verdade, não ouro de tolo.

* Publicado no Alias

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