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Oscar 2010: uma disputa familiar

Luiz Zanin Oricchio

03 Fevereiro 2010 | 08h48

Com a entrada no páreo de Guerra ao Terror, o Oscar de 2010, que se encaminhava para uma tediosa consagração de Avatar, ficou mais interessante. As razões você sabe: a diretora de Guerra ao Terror, Kathryn Bigelow, é a ex-senhora James Cameron, cineasta de Avatar. Assim, a disputa pela estatueta de direção será uma espécie de Guerra dos Roses, ou Kramer x Kramer dos anos 2000. Metaforicamente falando, é claro, pois Cameron, um gentleman, já declarou que sua ex merece levar para casa o troféu, etc.

Muito nobre da parte dele, mas a verdade é que Guerra ao Terror é mesmo muito bem dirigido. Kathryn imprime tom seco e tenso à sua história de guerra, na qual o perigo se torna fonte viciante de adrenalina para alguns soldados. Alguns deles, em particular, que trabalham em missão das mais árduas: desarmar bombas prestes a explodir. A tarefa exige nervos de aço, mas muitos soldados não conseguem se desvencilhar dela depois da experiência e têm dificuldades em se readaptar à vida civil.

O que se tem objetado a Guerra ao Terror é a ausência da dimensão política da intervenção no Iraque. É um questionamento a ser levado em consideração, mas sobra a Kathryn razão para dizer que não quis fazer um filme reflexivo, mas simplesmente colocar o espectador no ponto de vista de rapazes que vão a outro país participar de uma luta cujos fundamentos políticos eles ignoram por completo. Assim, o filme nada tem de didático, mas compensa a falta de reflexão com um clima tenso e envolvente. Kathryn é uma engenhosa diretora de filmes de ação e não nega fogo ao aplicar sua vocação à guerra no Iraque.

Já seu ex-marido flerta (namora e casa) com a melhor tecnologia de ponta disponível no mundo do audiovisual e cria esse mundo fantástico em três dimensões, com clara mensagem antimilitarista e ecológica. Sobre esse filme de grande sucesso popular, fica a pergunta: ele é algo mais do que expressão cinematográfica de uma maravilha tecnológica?

Esse é o fundo do debate. Visto de um certo ângulo, Avatar parece mesmo meio ingênuo. Verdade que coloca na tela uma tese bastante realista, por assim dizer: a de que quando se deseja enfrentar um opressor, é preciso guerrear com ele. Verdade também que a definição da luta em Pandora precisa contar com uma intervenção da natureza revoltada, o que esvazia um pouco o tom humano, e portanto político, do conflito. Mas não se pode exigir demais, com tanto dinheiro em jogo. E, assim, Cameron, que nada tem de bobo, preferiu contemporizar a levar a tese da autodefesa legítima às últimas consequências. O recado, de qualquer forma, é passado ao público.

Esses são os dois bichos-papões do Oscar deste ano. A não ser que Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, surpreenda e emplaque algumas das indicações. É, de longe, o filme que expressa melhor o prazer cinematográfico do diretor. Nem sempre isso é levado em conta.

Outros filmes “menores”, entram no páreo com força. Entre eles, Amor Sem Escalas e Preciosa. Em Amor Sem Escalas, de maneira quase despretensiosa, desenha-se uma crítica ao vazio do homem contemporâneo por meio do personagem interpretado por um George Clooney contido. Clonney vai bem no papel do tubarão corporativo que perde sua alma. Dirigido por Jason Reitman, é um filme pequeno, lacunar e digressivo que, visto sem preconceitos, tem algumas reflexões a oferecer, além do divertimento.

Diversão é tudo o que nega um filme como Preciosa, de Lee Daniels. Retrato sem retoques de uma família disfuncional, põe em cena a garota obesa (Gabourey Sidibe, indicada para melhor atriz), que sofre abuso sexual do pai e fica grávida. Um filme radical, para os tempos atuais. Dos candidatos, é o que vai mais fundo em sua proposta.

(Caderno 2, 3/2/2010)