Oscar, uma aposta no cosmopolitismo
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Oscar, uma aposta no cosmopolitismo

Luiz Zanin Oricchio

28 Fevereiro 2012 | 08h44

 

A vitória de O Artista era esperada. O que não se esperava é que vencesse tão bem. Afinal, das cinco categorias consideradas principais (filme, direção, ator, atriz e roteiro), levou três. A de ator já era dada como perdida para George Clooney. Cogitava-se que a direção ficaria com Scorsese, de modo a equilibrar um pouco o resultado. Mas não. A de ator ficou com Jean Dujardin e a direção, com Hazanavicius. A vitória, assim, foi acachapante. Hugo Cabret ficou com um bom número de prêmios, mas todos no segmento técnico. Os troféus “artísticos” penderam todos para a produção franco-belga. O que torna essa edição do Oscar digna de entrar para a história. Menos pelo filme, em si, e mais pelo cosmopolitismo do resultado.

Claro, a vitória da França é de importância inestimável, algo a ser valorizado. Basta pensar o que aconteceria por aqui se o Brasil vencesse, não o Oscar de melhor filme estrangeiro que perseguimos como ao Graal, mas o de melhor filme, pura e simplesmente. Talvez tivéssemos de providenciar uma semana extra de feriados apenas para acomodar as festividades. É possível que a França não tenha a mesma obsessão por reconhecimento, mas, ainda assim, não deixa de ser um marco, mesmo para eles. Ainda mais para um país que, por ironia, é um dos poucos que conseguem manter seu mercado interno saudável, defendendo-se da invasão indiscriminada dos blockbuster norte-americanos. (O mercado interno francês é ocupado entre 40% a 50% pelo filme nacional contra 10% a 15% no caso brasileiro.) Desse modo, a vitória de O Artista é algo de alta simbologia, por mais que por trás dela esteja um produtor esperto. Cinemas que se levam a sério acabam reconhecidos, mesmo pelo maior concorrente.

Outro aspecto a ser valorizado é o prêmio ao iraniano A Separação. Há o aspecto político da coisa, que não deixou de ser contornado, com sutileza, no discurso do vencedor Asghar Fahardi, que chamou a atenção para o peso cultural do seu país, em geral ignorado diante da contingência internacional. Sem ser diretamente político, A Separação desvenda tamanha sutileza na apreensão de sentimentos contraditórios que só pode ser obra de uma cultura sofisticada. Portanto, digna do nosso respeito e admiração. O fato de a Academia ter reconhecido a qualidade estética dessa obra apenas a valoriza como instituição. Mostra que sabe ir além dos seus limites, bastante devassados pela impiedosa reportagem do Los Angeles Times sobre a sua composição (94% são brancos, 77%, homens, mais da metade passou dos 60 anos).

Com tudo isso, essa Academia envelhecida, branca e masculina, em tese pouco porosa à novidade, soube reconhecer a qualidade de A Separação, que não era apenas o melhor concorrente estrangeiro do Oscar, mas, talvez, o melhor dos filmes que lá estavam em julgamento. Isso para não falar de A Árvore da Vida, o esplêndido e ambicioso trabalho de Terrence Malick, que venceu o Festival de Cannes, mas não pareceu merecedor de nenhuma das três estatuetas a que estava indicado. Santo de casa não faz milagres. A Academia reconhece a arte até certo ponto, mas Malick também já seria exagero.

(Caderno 2)

 

Premiados:

1)     Melhor filme
“O Artista”
“Os Descendentes”
“Tão Forte e Tão perto”
“Histórias Cruzadas”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Meia-Noite em Paris”
“O Homem que Mudou o Jogo”
“A Árvore da Vida”
“Cavalo de Guerra”

2) Melhor direção
“O Artista”, de Michel Hazanavicius
“Os Descendentes”, de Alexander Payne
“A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese
“Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen
“A Árvore da Vida”, de Terrence Malick

3) Roteiro adaptado
“Os Descendentes”, de Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash
“A Invenção de Hugo Cabret”, de John Logan
“Tudo Pelo Poder”, de George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon
““O Homem que Mudou o Jogo”, de Steven Zaillian, Aaron Sorkin e Stan Chervin
“O espião que Sabia Demais”, de Bridget O’Connor e Peter Straughan

4) Roteiro original
“O Artista”, de Michel Hazanavicius
“MIssão Madrinha de Casamento”, de Annie Mumolo e Kristen Wiig
“Margin Call – O Dia Antes do Fim”, de Written by J.C. Chandor
“Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen
“A Separação”, de Asghar Farhadi

5) Melhor ator
Demián Bichir em “A Better Life”
George Clooney em “Os Descendentes”
Jean Dujardin em “O Artista”
Gary Oldman em “O Espião que Sabia de Mais”
Brad Pitt em “O Homem que Mudou o Jogo”

6) Melhor ator coadjuvante
Kenneth Branagh em “Sete Dias com Marilyn”
Jonah Hill em “O Homem que Mudou o Jogo”
Nick Nolte em “Guerreiro”
Christopher Plummer em “Toda Forma de Amor”
Max von Sydow em “Tão Forte e Tão Perto”

7) Melhor atriz
Glenn Close em “Albert Nobbs” (Roadside Attractions)
Viola Davis em “Histórias Cruzadas” (Touchstone)
Rooney Mara em “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
Meryl Streep em “A Dama de Ferro” (The Weinstein Company)
Michelle Williams em “Sete Dias com Marilyn”

8) Melhor atriz coadjuvante
Bérénice Bejo em “O Artista”
Jessica Chastain em “Histórias Cruzadas”
Melissa McCarthy em “Missão Madrinha de Casamento”
Janet McTeer em “Albert Nobbs”
Octavia Spencer em “Histórias Cruzadas”

9) Melhor documentário
“Hell and Back Again”
“If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front”
“Paradise Lost 3: Purgatory”
“Pina”
“Undefeated”

10) Melhor filme estrangeiro
“Bullhead” (Bélgica)
“Footnote” (Israel)
“In Darkness” (Polônia)
“Monsieur Lazhar” (Canadá)
“A Separação” (Irã)

11) Melhor animação
“Um Gato em Paris”, de Alain Gagnol e Jean-Loup Felicioli
“Chico & Rita”, de Fernando Trueba e Javier Mariscal
“Kung Fu Panda 2”, de Jennifer Yuh Nelson
“Gato de Botas”, de Chris Miller
“Rango”, de Gore Verbinski

12) Melhor direção de arte
“O Artista”
“Harry Potter and the Deathly Hallows Part 2”
“A Invenção de Hugo Cabret” (Dante Ferreti, Francesca Lo Schiavo)
“Meia-Noite em Paris”
“Cavalo de Guerra”

13) Melhor fotografia
“O Artista”
“Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
“A Invenção de Hugo Cabret” (Robert Richardson)
“A Árvore da Vida”
“Cavalo de Guerra”

14) Melhor figurino
“Anônimo”, de Lisy Christl
“O Artista”, de Mark Bridges
“A Invenção de Hugo Cabret”, de Sandy Powell
“Jane Eyre”, de Michael O’Connor
“W.E.”, de Arianne Phillips

15) Melhor curta documentário
“The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement”
“God Is the Bigger Elvis”
“Incident in New Baghdad”
“Saving Face”
“The Tsunami and the Cherry Blossom”

16¨) Melhor montagem
“O Artista”
“Os Descendentes”
“Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“O Homem que Mudou o Jogo”

17) Melhor maquiagem
“Albert Nobbs”
“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2”
“Dama de Ferro”

18) Trilha Sonora
“As Aventuras de Tintim”, de John Williams
“O Artista”, de Ludovic Bource
“A Invenção de Hugo Cabret”, de Howard Shore
“O Espião que Sabia Demais”, de Alberto Iglesias
“Cavalo de Guerra”, de John Williams

19) Melhor canção
“Man or Muppet”, do “Os Muppets”, música e letra de Bret McKenzie
“Real in Rio”, do filme “Rio”, música de Sergio Mendes e Carlinhos
Brown, letra de Siedah Garrett

20) Efeitos especiais
“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2”
“A Invenção de Hugo Cabret”
“Gigantes de Aço”
“Planeta dos Macacos: a Origem”
“Transformers: O Lado Oculto da Lua”

 

 

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Resumo da premiação

 

O Artista: filme, direção, ator (Jean Dujardin), figurino, trilha sonora

 

A Invenção de Hugo Cabret: fotografia, direção de arte, edição de som, mixagem de som, efeitos especiais

 

Os Descendentes: roteiro adaptado

 

Histórias Cruzadas: atriz coadj. (Octavia Spencer)

 

A Dama de Ferro: maquiagem, atriz (Meryl Streep)

 

Os Homens que não Amavam as Mulheres: montagem

 

Toda Forma de Amor: ator coadjuvante (Christopher Plummer)

 

Meia Noite em Paris: roteiro original

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