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Oscar: uma aposta diferente

Luiz Zanin Oricchio

25 de fevereiro de 2007 | 10h59

Adivinhar quem serão os vencedores é o esporte mais popular associado ao Oscar. Esporte de risco, porque implica decifrar o que vai pela cabeça de um colégio eleitoral formado por mais de 6 mil votantes. Há previsibilidade, porém, porque, com base na experiência acumulada, pode-se apostar neste ou naquele filme, neste ou naquele ator, com razoável grau de segurança. Há também as premiações prévias, que indicam caminhos, como a do Globo de Ouro e os prêmios dos sindicatos de atores (Actor’s Guild) e diretores (Director’s Guild). Enfim, o Oscar é um jogo, mas não um jogo de azar, aleatório. Pode-se jogar com inteligência, habilidade e conhecimento acumulado, embora um pouco de sorte não seja de todo inútil.

Há um outro jogo, este de risco maior, e cujo resultado só pode ser conhecido anos mais tarde: quais dos filmes indicados, ou mesmo premiados, ficarão, e quais serão descartados pela memória coletiva pouco tempo depois? Não parece engraçado que, por exemplo, Titanic ou Coração Valente tenham sido considerados os melhores filmes nos anos em que foram lançados? Alguém garante que Crash, que surpreendeu a todos no ano passado, estará vivo na memória cinéfila daqui a dois ou três anos? Como estão, e provavelmente estarão, por muito tempo ainda, O Poderoso Chefão ou Lawrence da Arábia.

Portanto, a pergunta pode ser: o que vai sobrar dos indicados deste ano depois da euforia da festa e do choro dos perdedores? Qual dos cinco indicados para a categoria principal tem mais condições de resistir à passagem do tempo? Talvez um bom palpite seja Cartas de Iwo Jima que, ganhe ou não a estatueta, deverá se tornar referência no gênero ‘filme de guerra’ junto com seu par, A Conquista da Honra.

Cartas de Iwo Jima tem também a vantagem de coroar uma singular carreira ascendente em Hollywood, a do diretor Clint Eastwood, que passou de astro caubói que era nos anos 60 e 70 a um dos grandes ‘autores’ do cinema contemporâneo. É provável que no futuro esse impactante filme sobre a batalha de Iwo Jima vista pelos olhos do derrotado seja usado como exemplo de como um profissional de cinema pôde mudar de maneira radical a direção de sua carreira e se tornar o oposto do que fora até então.

A Rainha pode até ganhar o Oscar, mas será considerado, em qualquer tempo, e mesmo agora, um dos pontos altos da trajetória de Stephen Frears? A mesma pergunta poderá ser feita caso vença Os Infiltrados. Será que Scorsese não mereceu mais o prêmio lá atrás, com obras tão intensas quanto Táxi Driver, por exemplo? Ou, na hipótese de vencer Pequena Miss Sunshine, ele será lembrado como o filme simpático que é ou como uma das maiores zebras de toda a história do Oscar?

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