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Os Tabajaras do bem

Luiz Zanin Oricchio

09 de outubro de 2006 | 00h22

Devo ao Luis Nassif o resgate de uma fração de memória que julgava desaparecida. Ou nem isso, já que há anos não pensava sequer no assunto e portanto era como se eles jamais tivessem existido para mim. Me refiro aos Índios Tabajaras, duo violonístico que fez furor entre os anos 40 e 60, e, pelo menos no Brasil, caiu no esquecimento. Hoje em dia, por causa do Casseta & Planeta ou, mais recentemente, o caso do Dossiê dos Vedoin, a palavra “tabajara” ficou associada a coisa tosca, canhestra, cômica. Pois bem, nada mais sofisticado do que os nossos Índios Tabajaras, que nasceram no Ceará, levaram quatro anos para descer com a família de 16 irmãos ao Rio de Janeiro e tornaram-se sucesso imediato de público.

Rebatizados com os “nomes cristãos” de Antenor e Natalício Moreira Lima, os irmãos desenvolveram técnica violonística invejável. Acabaram indo para os Estados Unidos e lá, segundo consta, chegaram a vender 1,5 milhão de cópias da sua versão de um clássico mexicano, Maria Elena.

Estudei violão clássico na adolescência e freqüentei durante anos o meio musical desse instrumento. O pouco que então se falava dos Tabajaras era depreciativo. Teriam apenas técnica e não primavam pelo gosto do repertório. Ouvi, na época, um LP da dupla, mas já com a audição contaminada pelo preconceito. E não pensei mais no assunto, me entregando à adoração segura de Andrés Segovia no violão clássico, e Baden Powell no popular. E assim segui a vida.

Agora, motivado pela crônica do Nassif, me interessei pelos Tabajaras e procurei ouvi-los de novo. Confesso: no primeiro momento, o que me motivou mais foi a história deles e nem tanto a música que produzem. Índios pobres, que levam anos e anos peregrinando pelo País, aprendendo com tocadores de feiras e chegando até a trocar o violão por um prato de comida para a família, bem tudo isso tem seu valor emocional, não é mesmo? E depois, a história desse aprendizado na garra, contra tudo e todos, que se transforma em arte e técnica, e depois em fama e consagração bem que merecia uma segunda chance em meu imaginário afetivo.

Assim, tantos anos depois, me pus a ouvir os Tabajaras, e fiquei surpreso. A destreza de Nato chega a impressionar, em especial quando interpreta na palheta O Vôo do Besouro, que é uma peça para derrubar velocistas experimentados. Mas, mesmo quando o repertório não os favorece tanto, Nato (apelido de Natalício) e Antenor colocam na interpretação tamanha sabedoria musical que transformam peças simples em pequenas obras-primas.

Fiquei deliciado e agradecido por este redescobrimento tardio. Ah, sim, os irmãos nasceram em 1918 e consta que continuam vivos e sãos, morando nos Estados Unidos. Que belo documentário não dariam esses personagens, hein? Veja e ouça um clipe com os Tabajaras e Nato mostrando sua incrível técnica no Vôo do Besouro

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