Os Miseráveis
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Os Miseráveis

Luiz Zanin Oricchio

01 Fevereiro 2013 | 20h09

 

Continua entrando a safra Oscar e agora chegam Os Miseráveis e O Lado Bom da Vida (leia texto abaixo). O musical, adaptado da peça e do original de Victor Hugo, é o vencedor do Globo de Ouro de melhor comédia ou musical – divisão de gêneros que não existe na Academia de Hollywood. Em todo caso, entra com oito indicações e seu cacife é bom. Talvez não para ganhar os prêmios principais, mas alguns dos secundários.

E o filme em si? Bem, é um musical puro. Isto é, todos os diálogos são cantados, com uma ou outra raríssima exceção. Há gente que não tolera isso. Tanto assim que não vemos os cartazes apregoarem que se trata de um musical. Como se fosse algo a ser escondido. Tolice, há grandes musicais, o maior de todos Cantando na Chuva (Stanley Donen/Gene Kelly). Mas, enfim, quem for ver (e ouvir) o filme deverá ir com o espírito de quem vai a uma ópera. Isto implica, entre outras coisas,  abandonar a cobrança do realismo, que é uma das referências mais automáticas do cinema, em especial o cinema comercial. De qualquer forma, Os Miseráveis é o musical mais visto do mundo. Funcionará na tela? Veremos.

Aqui, é abandonar-se à música, ao visual, que tem algumas sequências magníficas, e à emoção de uma das mais tocantes histórias já escritas. Qual é essa história? A de Jean Valjean (Hugh Jackman), preso por roubar um pão e conduzido às galés. Libertado, Valjean é um homem embrutecido, mas sua alma, digamos assim, será liberada por um sacerdote de bom coração. Valjean decide mudar de vida e de nome. Mas um policial, Javert (Russell Crowe), não lhe dá sossego e o persegue onde quer que vá. Esse nome, Javert, ficou como uma espécie de clichê dos perseguidores implacáveis, cegamente obedientes à lei, mesmo que injusta, sem qualquer outro tipo de consideração humana.

A ação se dá na França oitocentista, tendo como pano de fundo a derrota de Napoleão em Waterloo e a revolta popular de 1832. Na magnífica edição de Os Miseráveis, da CosacNaify (texto integral, ilustrado), há um prefácio esclarecedor do filósofo Renato Janine Ribeiro. O romance de Hugo é um marco daquilo que poderíamos chamar de “percepção da pobreza”. Em épocas anteriores, a pobreza seria enxergada, mas não vista, porque parecia tão parte da ordem natural das coisas que se tornava virtualmente invisível.

Mas, a partir de certo momento histórico, essa invisibilidade não resiste à evidência dos fatos. Janine conta que o próprio Hugo, em sua trajetória, participara dessa cegueira. Até o momento em que finalmente abriu os olhos. Esse momento é preciso. Numa rua de Paris, Hugo nota o olhar de ódio de um mendigo, dirigido ao figurão que embarcava em sua carruagem de luxo. Percebeu que ali havia alguma coisa extraordinária. Luta de classes, poderia dizer, caso usasse o vocabulário de seu contemporâneo Karl Marx. Hugo era um poeta, artista, não um pensador. Sentiu que os universos dos pobres e dos ricos se afrontavam e para esse lado dirigiu sua obra. Marx, diz-se, achava a revolta de Hugo contra a injustiça romântica e algo ingênua. Pode ser, aos olhos do revolucionário, preocupados em saber como a revolta tomará forma efetiva de transformação do mundo.

No entanto, é tão marcante a sensação de injustiça passada por uma obra como Os Miseráveis que ela não deixa de ser transformadora, mesmo se a considerarmos superficial ou a acusarmos de sentimentalismo. Hugo, como se sabe, é poeta às vezes contestado, como o é o Romantismo em seu todo. Mas dele dizia Nietzsche: “Um farol no mar do absurdo”.

De qualquer forma, a imensa desproporção entre o crime e o castigo de Valjean, a cega perseguição de Javert, o martírio de Fantine (Anne Hathaway) jogada na prostituição, o destino incerto de Cosette (Amanda Seyfried) – tudo isso é tão gritante que parece pedir pelo registro operístico. Não espanta, talvez, que Os Miseráveis tenha encontrado no musical a sua forma mais adequada, aquela forma através da qual consegue se comunicar com um público cético e frio em relação aos seus temas principais.

 

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