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Os (meus) melhores de 2009

Luiz Zanin Oricchio

30 de dezembro de 2009 | 23h49

Este ano o jornal me pediu um texto diferente para a retrospectiva 2009, no lugar dos tradicionais melhores do ano. A inovação é bem-vinda, mas como o costume também tem seus direitos, resolvi dar uma interrompida nas férias e postar os meus preferidos do ano. À moda antiga.

Com algumas ressalvas. A principal: não tenho a lista completa dos lançamentos. A memória não é grande coisa e tive de confiar nessa ingrata mais do que gostaria. Para contornar a falta de registro, dei uma olhada na minha agenda para lembrar dos filmes através das cabines marcadas. Com um outro tipo de problema: não sou lá muito organizado em termos de agenda. Às vezes marco um compromisso no papelzinho e depois jogo fora.

Além disso, passei boa parte do ano viajando. Alguns filmes importantes podem ter passado sem registro apesar de tê-los visto. Perdões antecipados. Com o que pude lembrar, a lista do que me pareceu digno de ser lembrado ficou assim, e sem hierarquias:

ESTRANGEIROS:

Bastardos Inglórios, como celebração do desejo de cinema, sentimento que se transmite ao espectador.

Anticristo: a radicalidade, o sentido profundo da ambigüidade humana. Fica com você, embora às vezes fosse preferível esquecer.

Almoço em Agosto: a simplicidade, um retorno ao antigo cinema italiano.

O Desinformante: mais complexo e rico do que muita gente achou.

A Teta Assustada. Na primeira vez me chapou; na segunda, achei meio folclorizante. Mesmo assim, legal.

Che 2. Também pichado por muita gente boa. Se for visto como parte de um díptico, melhora muito. E seu sentido muda.

O Equilibrista: um senhor documentário sobre o Philippe Petit, o maluco que atravessou o espaço entre as torres gêmeas num cabo de aço. Conheci a figura no Amazonas.

Gran Torino: ah, Clint, se todos fossem iguais a você…

A Janela: a intensidade despojada de um certo cinema argentino.

Desejo e Perigo: Ang Lee suntuoso e erótico, intenso e violento, melhor do que na história dos caubóis gays.

Inimigo Público: cinemaço.

Abraços Partidos: outro Almodóvar, de corpo e alma. O corpo é de Penélope Cruz. Pensando bem, a alma também.

Horas de Verão: há vida no cinema francês. E muita vida.

Entre os Muros da Escola: o mundo, sua beleza e suas contradições,na sala de aula.

A Partida: filosófico, à maneira oriental. Diz respeito a todos nós, pois ninguém escapa àquilo que forma seu tema de base.

NACIONAIS:

A Erva do Rato: um Bressane inspirado e preciso, como um texto de Machado. As usual.

Moscou: mais uma vez Coutinho deu um nó em todo mundo. Em especial em admiradores, certos de que ele havia encontrado “a” fórmula. Puxou o tapete de todo mundo.

Se Nada mais Der Certo: cinema hiperbólico, intenso, cheio de estilo de Belmonte, cineasta que deveria ser mais amado.

É Proibido Fumar: Anna Muylaert gosta de mudar de registro e direção no meio da história. Quem não gosta de surpresas, estranhas. Eu gosto. Pelo menos das boas surpresas e este filme foi uma delas, neste ano absurdo.

Jean Charles: um pouco discursivo em certas partes, no todo me surpreendeu, no
sentido positivo.

Lóki: é bom demais e não apenas pelo personagem (que aliás é ótimo).

Simonal: idem, só que o personagem é meio dúbio e o filme não esconde isso.

Cidadão Boilesen: No Brasil não se pode falar em resgate histórico, senão é revanchismo. Mas o cinema, que não deve nada para ninguém, tem o dever de tirar os esqueletos do armário. Literalmente.

Entre a Luz e a Sombra: Sete anos de dedicação para mostrar um Brasil que pouco compreendemos. Talvez o filme tenha alguns problemas, mas seus méritos os ultrapassam de longe.

À Deriva: meteram o pau no diretor, mas não é minha opinião. Fez um filme maduro, envolvente, muito bem dirigido.

Budapeste: talvez o mais bonito filme brasileiro do ano. Cada plano é uma obra de
arte. Às vezes parece tão plasticamente belo que se torna artificial, e então perde vida. No todo, impressiona bem.

Juventude: também foi vítima de implicância – “é filme de velhinhos assanhados, etc.” E daí? O único jeito de não ficar velho é morrer jovem. E já que é para ficar velho, melhor que seja com certo assanhamento, não é não?

Termino com um voto secreto, que agora torno público: tomara em 2010 os críticos sejam um pouco menos arrogantes e parem de dizer (escrever): tal filme é o melhor e aquele é o pior. De forma explícita ou oculta, todo juízo crítico é escrito em primeira pessoa do singular e lucraríamos em ter consciência disso. Vamos baixar a bola, galera!

É isso aí. Ótimo 2010 a todos.

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