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Os melhores filmes do ano

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2006 | 13h06

Eu e meu colega Luiz Carlos Merten, que tem blog próprio neste espaço, escrevemos matérias no Caderno 2 sobre os melhores filmes do ano. Quer dizer, “melhores” em nossa opinião. Talvez você pense diferente. Leia abaixo:

Luiz Zanin Oricchio

A cada ano aumenta a quantidade de filmes lançados, e nem sempre a qualidade acompanha esse ritmo. Mas também, a cada balanço de fim de ano constatamos que boas atrações não faltaram e, garimpando, somos capazes de compor uma amostra interessante do que de melhor houve no ano.

Em termos numéricos, os lançamentos se aproximaram dos 400 longas-metragens, dos quais 72 brasileiros. Uma cifra importante de participação nacional que, no entanto, não se refletiu na bilheteria. Apenas a comédia de Daniel Filho, Se Eu Fosse Você, atingiu números expressivos, 3,6 milhões de espectadores. Os outros patinaram: os filmes são feitos, mas não chegam ao público. Falta resolver essa equação.

E é uma pena que não seja resolvida porque a seleção cinematográfica brasileira não decepcionou como a outra. Entre os títulos colocados à disposição do público, podem-se pinçar, sem dificuldade, exemplares muito bons. A começar por aquele que talvez seja o melhor de 2006, O Céu de Suely, de Karim Aïnouz, que venceu o Festival de Havana, ganhou o Prêmio APCA e consagrou sua protagonista, Hermila Guedes, a atriz do ano no Brasil.

O Céu de Suely vai ao Brasil rural e flagra o modo de vida da gente simples, mas a personagem principal poderia ser qualquer um de nós, com suas aspirações e sonhos a realizar, e sua maneira particular de concretizá-los. A exemplo de outros, é um filme de silêncios, de ambientação e de deslocamento, como se as imensas dimensões do Brasil atraíssem os cineastas e os inspirassem a retratar o movimento interno no País. Também vai por aí Árido Movie, de Lírio Ferreira, filme de estrada à brasileira, que reinventa um sertão com paleta fotográfica inspirada no Cinema Novo. Também o singelo Tapete Vermelho, de Gal Pereira, se ambienta no mundo rural, em terna evocação de Mazzaropi e seu universo cinematográfico.

Pode ser que o filme brasileiro mais emocionante de 2006 tenha sido O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer, com sua revisita aos anos da ditadura Médici pelos olhos do menino que apenas deseja ser goleiro e acompanhar a Copa do México em companhia de pai e mãe. A recriação do bairro do Bom Retiro é tocante, com seu retrato da sociedade multiétnica e solidária, um Brasil que poderia ter sido e não foi.

Provavelmente a medalha de mais radical fique com Crime Delicado, de Beto Brant, embora tenha A Concepção, de José Eduardo Belmonte, em seus calcanhares disputando esse título. Acontece que Crime Delicado, adaptado da novela de Sérgio Sant’Anna, é mais redondo e incisivo que A Concepção. Ambos espreitam o subsolo do comportamento e da mente humana, põem em xeque a superficialidade dos bons modos e do politicamente correto. São os filmes de risco, no fio da navalha, sem os quais nenhuma cinematografia anda para frente. Nesse sentido, embora em outra faixa, caminha também a animação de Otto Guerra, Wood & Stock, sobre os anos loucos de sexo, drogas e rock, em chave não nostálgica e debochada.

Já na radicalidade da ternura, o destaque fica para Eu me Lembro, de Edgard Navarro, um Amarcord baiano que refaz, com toques de ficção, a trajetória de vida do diretor, dos anos 1950 até os 1970. Quando um artista como Navarro recompõe de forma ficcional a sua vida, fala também da nossa, daí a universalidade desse memorialismo áspero e comovente, como é bem o caso de Eu me Lembro.

Dos 72 longas brasileiros lançados, 41 foram de ficção, 30 documentários e uma animação (Wood & Stock). O número é significativo, já a fatia de público conquistado – 12% dos ingressos – deixa a desejar.

O número de documentários deve ser comentado. Trinta títulos, a maioria de boa feitura, mapeando aspectos diversos do País, e um deles excepcional – Estamira, de Marcos Prado -, imersão no universo da esquizofrenia e também das precárias condições sociais da personagem. Destaque para Mamute Siberiano, de Vicente Ferraz, sobre a odisséia cinematográfica de Mikhail Kalatozov, que, na época de aproximação entre Fidel e Kruchev, foi à ilha para filmar o hoje clássico Soy Cuba, incompreendido em seu tempo.

Quanto às produções estrangeiras, é preciso filtrar sem dó para destacar o que houve de interessante no período. E então surgem as pepitas.

Se tivesse de escolher o mais belo filme do ano ficaria com Amantes Constantes, do francês Philippe Garrel, estudo em preto-e-branco sobre o legado do maio-1968. O mais intenso seria Volver, de Pedro Almodóvar, com Penelope Cruz e um time de atrizes de tirar o fôlego, dando vida ao solidário universo feminino do cineasta. O mais engajado seria A Criança, dos irmãos belgas Dardenne, que enxergam a violência da questão social sob o verniz da Europa civilizada. E o mais inquietante seria Cachê, que o austríaco Michael Haneke filmou na França, e no qual detecta, como poucos, o mal-estar das relações humanas na afluente União Européia.

Woody Allen, que não encontra mais mercado em seu país, foi filmar na Grã-Bretanha seu Match Point – Ponto Final, ensaio sobre o crime e o acaso na vida das pessoas. Cinema de maturidade, de altíssima qualidade. Dos Estados Unidos, a surpresa veio com George Clooney, o bonitão de talento e consciência social, que, para falar de Bush, evoca o tempo do macarthismo em Boa Noite, e Boa Sorte, e também está, como ator, no complexo Siriana. Spike Lee fez um bom entretenimento com O Plano Perfeito, e Tommy Lee Jones dirige e atua no melhor de todos os americanos do ano, Três Enterros, seu diálogo com o México e com o universo rural de um país áspero e violento. Em sua retaguarda, Lee Jones teve o roteirista Guillermo Arriaga, de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. Muita gente não gostou de Os Infiltrados, de Martin Scorsese. Mas outro tanto entende que, fazendo seus filmes gângsteres, Scorsese é o cineasta que disseca, como nenhum outro, o coração selvagem da América.

Para quem se queixa de que a produção latino-americana não chega por aqui, um consolo: 13 longas-metragens argentinos estrearam em São Paulo, com algumas surpresas como Buena Vida Delivery, de Leonardo di César, e Crônica de uma Fuga, de Adrián Caetano. Mas o melhor foi O Guardião, de Rodrigo Moreno, sobre o cotidiano alienado de um guarda-costas de um político.

Entre os hispânicos, a jóia da coroa é o cubano Suíte Havana, de Fernando Pérez, o maior cineasta da ilha. Numa história comovente, contada quase sem diálogos, é a vida mesma dos habitantes da velha San Cristóbal de la Habana, em sua carne, que desfila diante dos olhos do espectador. Aquele tipo de filme que provoca vontade de agradecer ao cineasta pelos momentos de beleza que nos proporcionou.

Luiz Carlos Merten

Você já sabe da hecatombe – o cinema brasileiro perdeu público em 2006. Houve uma queda da freqüência que nem o aumento do preço do ingresso conseguiu equilibrar. Se a quantidade foi mal em 2006, a qualidade foi muito bem. O melhor filme do ano foi brasileiro (O Céu de Suely), a melhor atriz foi brasileira (Hermila Guedes), a melhor seqüência foi de um filme brasileiro. Como o cinema parte do particular para o geral e deste volta ao particular para discutir a situação do homem no mundo, podemos, em vez dos melhores filmes, citar as melhores seqüências do ano.

O CÉU DE SUELY – Na última cena do filme de Karim Aïnouz, Hermila/Suely deixa a cidade, de ônibus. João Miguel vai atrás dela, de moto. O ônibus desaparece numa elevação da estrada. Na tela, fica só um imenso vazio. João conseguirá trazer a amada de volta? E, se conseguir, será um happy end? Passa-se um longo minuto. Você, que já viu o filme, sabe como termina. Não vamos tirar a graça de quem não viu, mas, com simplicidade e economia, o desfecho de O Céu de Suely é um desses momentos que criam, no inconsciente do público, o mistério e a sedução do cinema.

ZUZU ANGEL – Com todos os defeitos que possa ter, o filme de Sérgio Rezende tem a cena genial do encontro de Patrícia Pillar com Nelson Dantas, a mais bela do ano. Zuzu Angel vai ao pai de Lamarca, em busca de notícias do filho que desapareceu. Não se falam. Compartilham uma dor imensa, pois ambos são pais que perderam os filhos. Nelson Dantas é prodigioso como sapateiro. A emoção é tanta que ele morde o prego até arrancar sangue do lábio. O cinema não precisa de palavras para falar.

MUNIQUE – Avner, o agente israelense interpretado por Eric Bana, volta para casa, um lar provisório, no qual se encontram a mulher e a filha, em Nova York. Ele entra, mas não encontra a tranqüilidade cara não apenas aos heróis de Steven Spielberg, mas aos do cinema americano em geral, já que o tema da volta para casa, como o da segunda chance, permeia toda a produção de Hollywood. Spielberg fez o filme mais radical sobre os EUA de George W. Bush. Sem uma só referência ao 11 de Setembro, ele usa o massacre dos atletas israelenses na Olimpíada de 1972 para discutir o direito à retaliação e o preço que se paga por ela. O de Avner é a perda da alma, da identidade, do lar.

PARADISE NOW – O complemento indispensável de Munique. O palestino Hani Abu Assad conta a história de dois mártires que se preparam para um ataque do terror, mas se perdem e o atentado fracassa. Os mesmos temas de Spielberg, mas agora vistos do outro lado – a perda da alma, as dúvidas existenciais e políticas. Numa grande cena, é servida a derradeira refeição aos heróis. A Última Ceia remete à do Cristo, como se Abu Assad estivesse fazendo uma ponte milenar. Há dois mil anos, naquela mesma região do globo, uma outra ocupação favoreceu o surgimento de fanáticos e mártires. O que começou ali pode ter sido uma forma de libertação interior, mas também de uma forma dominante de cultura e religião que subsiste até hoje.

VOLVER – Pedro Almodóvar conta tudo sobre a mãe de Penelope Cruz e transforma uma história de fantasmas numa liberadora experiência real. Na cena mágica, Penelope reabriu o restaurante do amigo e está dando de comer a toda aquela gente. Comida e música. Ela canta (dubla) Volver e sua mãe, que chega escondida no carro da outra filha, a ouve cantar a canção que lhe ensinou, quando criança. Volver – tudo é volta no filme de Almodóvar. Volta de Carmem Maura, da figura materna, do tema familiar, do passado que é preciso superar.

A PEQUENA MISS SUNSHINE – O maior pequeno filme do ano é uma produção independente, dirigida por Jonathan Dayton e Valerie Faris que reúne todos os clichês da família disfuncional e, por um passe de mágica, reinventa o óbvio com humor e emoção. A cena do strip-tease da pequena Miss Sunshine é antológica. O que fica nu é a própria sociedade.

MATCH POINT – Woody Allen filtra Dostoievski por Theodore Dreiser, Crime e Castigo vira Uma Tragédia Americana, que George Stevens já havia filmado como Um Lugar ao Sol. A tragédia humana e a tragédia social se unem na história do sujeito que está a um passo da ascensão burguesa, mas aí a namorada pobre anuncia que está grávida e ele se arrisca a tudo perder. Em Um Lugar ao Sol, Montgomery Clift queria matar a feia e desagradável Shelley Winters, por quem o espectador não tinha simpatia. Em Match Point, a crueldade de Woody Allen consiste em fazer com que Jonathan Rhys Meyer tenha de matar a bela e sexy Scarlett Johansson. Ao contrário do delicado final de O Céu de Suely, o de Match Point é uma bomba. Não vamos contar qual é, mas aquele desfecho aumenta a voltagem do melhor filme de Woody Allen em muitos anos.

PAI E FILHO – Um dos mais complexos e perturbadores filmes do ano. Dez anos depois de Mãe e Filho, Alexander Sokurov mostra agora este pai viúvo demasiado apegado ao filho adolescente. O rapaz presta serviço militar. O pai o acompanha ao quartel. O mais impressionante deste filme está na carnalidade das cenas que exploram os jogos viris entre homens. Mais de um crítico insinuou um vínculo homossexual nessa relação. Existe ou está no olhar de quem vê? Sokurov fala de família, usa o concreto para tentar chegar ao metafísico. E ao contrário de Mãe e Filho, que era sobre a morte, Pai e Filho é sobre a vida.

AMANTES CONSTANTES – Há algo de incestuoso na maneira como Philippe Garrel filma seu filho Louis, que foi ator de Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, neste filme que também exorciza lembranças do célebre Maio de 68. Nunca um pai filmou o corpo do filho, na hora do sexo, como ele. São cenas de um erotismo à flor da pele. Philippe projeta-se em Louis, mas seu filme não tem nada a ver com o de Sokurov (Pai e Filho). Usando uma deslumbrante fotografia em preto-e-branco (a mais bela do ano), o autor propõe uma narrativa longa e intimista baseada na recuperação dos valores da sua geração.

MIAMI VICE – O que era para ser só a versão para cinema do seriado de TV que o próprio diretor Michael Mann havia criado nos anos 70 vira uma poderosa indagação sobre o tempo – perdido, para Colin Farrell, reencontrado, para Jamie Foxx. E o filme tem ação, erotismo, é feito com tecnologia de ponta. É uma aula de cinema, por um grande diretor.

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