Os ‘magníficos’ de Domingos Oliveira
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Os ‘magníficos’ de Domingos Oliveira

Luiz Zanin Oricchio

12 de dezembro de 2020 | 17h56

 

Quatro atores e quatro atrizes, reunidos num apartamento e conversando sobre sua profissão, compõem Os Oito Magníficos, último trabalho de Domingos Oliveira (1939-2019). O filme foi exibido meses atrás numa mostra em homenagem a Domingos e chega agora ao circuito. 

O grupo “magnífico” é formado por Maria Ribeiro, Fernanda Torres, Carolina Dieckmann, Sophie Charlotte, Wagner Moura, Du Moscovis, Alexandre Nero e Mateus Solano. 

Domingos preside a reunião da turma e, por vezes, a transforma em lúdica dinâmica de grupo, na qual os profissionais, todos bem conhecidos do público, falam de inquietações, inseguranças, alegrias e aspirações de vida e de palco. Uns falam mais que os outros. Entre as mulheres, Fernanda Torres se destaca pela desenvoltura com que reflete sobre o métier. Entre os homens, o mais falante é Wagner Moura. 

O trabalho de câmera evita enquadramentos óbvios e, na maior parte do tempo, a tela é divida em duas – uma câmera em close sobre quem está falando,  e a outra em plano geral sobre o grupo, reunido ora nos sofás da sala, ora em torno de uma mesa. Telas divididas são como sapatos novos; incomodam no começo, depois a gente se acostuma e passa a gostar.

Facilita a maneira como os personagens se abrem o fato de estarem diante de um cineasta como Domingos Oliveira, amado de todo mundo e aberto à subjetividade de quem trabalha com ele. Sua obra é intensamente pessoal. Todas são. Mas de Domingos talvez seja ainda mais, como um diário íntimo anotado ao longo dos anos, com pensamentos originais, livres e de muita franqueza. 

Quem o compara a Woody Allen não deixa de ter razão. Mas talvez Éric Rohmer seja referência ainda mais forte – se é que precisamos delas para situar obra tão original. A pegada é autoral, centra-se em relacionamentos humanos e amorosos e, quase sempre, em histórias passadas na Zona Sul carioca. Era a aldeia de Domingos e ele não via razão de afastar-se para ser universal. Era seu mundo e lá filmava com sua turma. Não por acaso, seu extraordinário ensaio memorialístico BR 716, vencedor do Festival de Gramado, refere-se ao seu apartamento de juventude situado na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana. 

Este é como uma continuação de suas obras inaugurais, nos anos 1960, Todas as Mulheres do Mundo (1966) e Edu, Coração de Ouro (1967). Todas as Mulheres, com Paulo José e Leila Diniz, é uma das obras-primas do cinema brasileiro. Numa época muito politizada no cinema brasileiro (refletindo o clima do país), Domingos destoava, falando de relações amorosas, de encontros e desencontros. Isso numa chave muito moderna, tanto do ponto de vista comportamental quanto estético, filmando com leveza nouvelle vague e tendo dois protagonistas jovens, talentosos e bonitos, que brilham na tela. O filme não perdeu nada do seu viço.

Outros títulos foram se sucedendo ao longo do tempo. como os premiados Carreiras (2005), Amores (1998) e até obras menos conhecidas, como Paixão e Acaso (2012), Infância (2014), Juventude (2008), Separações (2002), Aconteceu na Quarta-feira (2018) e Feminices (2004). 

Até chegamos a este Os Oito Magníficos, opus final. É um filme agradável, celebração da arte da atuação, que Domingos, autor, diretor e ele próprio ator, tinha em alta conta. Pode-se dizer que é uma emocionante despedida do grande cineasta que foi, e de um ator digno de si mesmo, que vivia a se reinterpretar. Talvez não seja – e não é – uma obra maior na fulgurante filmografia de Domingos. Mas nunca é descartável. Mesmo porque são raras as reflexões de atores e atrizes sobre a impalpável profissão a que se dedicam. Ainda mais tendo a suave batuta de um mestre como Domingos Oliveira a regê-lo(a)s.  

 

Tudo o que sabemos sobre:

Domingos Oliveira