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Os irmãos Karamazov *

Luiz Zanin Oricchio

03 de dezembro de 2013 | 12h39

Amigos, não por acaso o melhor cronista de todos foi também o maior dramaturgo brasileiro. Nelson Rodrigues matou a pau: o futebol não é um jogo, é um drama. Às vezes uma comédia, outras, uma tragédia. Raramente é anódino.

Haja vista o sensacional desfecho deste que foi provavelmente um dos mais insossos campeonatos dos últimos tempos. Como se os deuses da bola tivessem deliberado que tudo fosse muito chato ao longo dos meses e apenas o terceiro e último ato tivesse alguma graça. Na verdade, apenas os instantes finais deste epílogo é que estão valendo a pena.

Pois não é que o “dramaturgo universal” resolveu colocar dois grandes clubes, e ambos do Rio de Janeiro, na zona de rebaixamento, e apenas a uma rodada do final? Mais: de maneira sutil, arranjou os números de maneira que pelo menos um dos cariocas esteja condenado já ao rebaixamento, e a passar na Série B o ano da Copa do Mundo no Brasil. O retoque máximo do artífice foi ter colocado o time do próprio Nelson Rodrigues na zona da degola. Sim, o Fluminense, campeão de 2012, é dos “candidatos”, junto com o Vasco da Gama. Um dos dois cai. Um escapa apenas se o outro cair. Os dois “coirmãos” cariocas precisam secar um ao outro para salvar a pele. Antes de baixar o pano do Campeonato Brasileiro, tornaram-se inimigos bíblicos como Abel e Caim ou Esaú e Jacó. Romanescos e patéticos como os irmãos Karamazov, podem também morrer abraçados, o que seria o desfecho pior para o futebol carioca.

Claro que existem outros candidatos. Criciúma e Coritiba continuam ameaçados, assim como, em grau menor, Portuguesa e Internacional. Mas o caso dos cariocas é, de longe, o mais clamoroso.

De todo modo, as torcidas têm comparecido para apoiar seus times ameaçados e a tensão nas arquibancadas faz a alegria dos câmeras de TV. Notei predileção em colocar as torcedoras em foco. Elas são mais emotivas e portanto representam melhor o sobe e desce dos times dentro de campo. Outro dia, em Fluminense x Atlético-MG, uma das torcedoras incorporava toda a intensidade emocional de que o futebol é capaz. Chorava quando o time começou a perder. Vibrou com o empate e a virada, tornou a chorar quando o Flu tomou o empate.

Em outro capítulo desse estranho Brasileirão, houve a despedida de Tite, que os comentaristas qualificam como o melhor técnico da história do Corinthians. Pelo menos foi com ele que o Timão ganhou seus títulos mais importantes. Na despedida, lamentaram-se Tite, os jogadores e os dirigentes. Então perguntamos: por que foi embora? Não é uma coisa incompreensível, que só pode acontecer num futebol bagunçado como o brasileiro?

Mas além de dramática dentro das quatro linhas, a semana passada foi trágica fora delas. Perdemos Nilton Santos, o maior lateral-esquerdo do mundo. Nilton era tão bom que o apelidaram de Enciclopédia do Futebol. Jogou quatro Copas e ganhou duas. Vestiu apenas duas camisas na vida como jogador profissional, a do Botafogo e a da seleção brasileira. Não se fazem mais jogadores como ele. Jamais se lamentou de que os craques em sua época não ganhassem nem uma ínfima parte do que fatura hoje um cabeça de bagre. Lamentava apenas não poder ir com tanta frequência ao ataque como vão agora seus colegas de posição.

E houve a triste morte dos dois trabalhadores no acidente do Itaquerão. Muito já se falou sobre isso. Das peças desgastadas do guindaste às condições de segurança afrouxadas quando o ritmo da obra é frenético. Aconteceu assim em outras ocasiões e vidas foram ceifadas para que prazos se cumprissem. Em homenagem a esses trabalhadores e a suas famílias, gostaria apenas de lembrar alguns versos de Bertolt Brecht: “Quem construiu Tebas das sete portas? / Nos livros constam os nomes dos reis. / Os reis arrastaram os blocos de pedra?”

* Coluna publicada na seção de Esportes do Estadão

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