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Os irmãos de Daniel Burman

Luiz Zanin Oricchio

11 de outubro de 2010 | 11h19

O diretor argentino Daniel Burman acha engraçado quando lhe perguntam por que o tema de seus filmes é sempre a família: “Mas existe algo fora da temática famíliar?”, pergunta, à guisa de resposta. “Eu não consigo enxergar; mesmo os filmes de guerra são filmes de família”. O repórter lhe diz que talvez os filmes políticos escapem a esse esquema. Mas Burman não se dá por vencido: “No filmes de guerra, o cidadão vai para a linha de frente para escapar da mulher; nos filmes políticos deve ser a mesma coisa”.

Pode ser brincadeira, mas, de fato, a noção de família define o universo de interesse de alguém que se sente parte do grupo de Pablo Trapero e Lucrecia Martel. “Um grupo de amigos, mas não de afinidades estéticas”, avisa. Uma “família” cinematográfica, já que esse é o caso. Ele ri. Em todo caso, quem revisar seus filmes irá encontrar, a famíia, essa figura de frente e de fundo – em Abraços Partidos, Ninho Vazio, Direito de Família (até no título!) e, agora, em Dois Irmãos.

Filme delicado, história de irmão e irmã, ambos já meio entrados em anos (Graciela Borges e Antonio Gazalla, nos papeis de Susana e Marcos), que têm a vida alterada quando a mãe, já idosa, morre. Marcos é um sessentão frágil, desamparado com a solidão; Susana representa o lado prático da casa. E, às vezes, sem escrúpulos. Vive de trambiques e, quando um deles não dá certo, vê-se obrigada a vender a casa herdada da mãe para cobrir o rombo. Despacha então o irmão para o Uruguai, para o condominío Villa Laura, fruto desse imbróglio imobiliário.

Dois Irmãos é um filme sensível, cheio de amor e humor, que consegue realçar a subjetividade dos personagens sem grandes lances dramáticos ou de ação. Tudo fica no plano do registro discreto, no subtexto, nas entrelinhas. De onde se adivinha a grande influência de Burman: “Truffaut, sem dúvida”, admite. No quadro de um cinema latino-americano que muitas vezes busca panoramas gerais e abrangentes, é no ínfimo da intimidade de personagens comuns que ele vai encontrar seu universo.

O que não quer dizer que, nesse trabalho no detalhe, não reverberem os chamados “grandes temas”. Por exemplo, na história de Dois Irmãos Burman vê algo que sentiu em sua própria vida – a morte simbólica dos pais como possibilidade de liberdade dos filhos. Tema freudiano, de quem foi criado em família judia e é morador de uma cidade tão psicanalisada como Buenos Aires.

Também não deixa de ser significativo que Marcos vá viver sua vida – e enfim se sentir livre – no Uruguai. “Mantemos com os vizinhos uma relação muito especial, de amizade, mas também de rivalidade” admite Burman. “Os dois países são como dois irmãos, os irmãos do título do filme”, diz. Laços de família, em suma.

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