Os Inimigos da Dor
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Os Inimigos da Dor

Luiz Zanin Oricchio

21 de maio de 2016 | 09h40

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Inimigos da Dor, de Arauco Hernández Holz, não tem medo de enfrentar tensões. E, em especial, o que é uma das maiores em termos da dramaturgia – a dificuldade de comunicação entre os personagens. Como fazer dialogar um protagonista que só se expressa em alemão, enquanto todas as outras pessoas que entram em sua vida não parecem conhecer uma única palavra do idioma de Goethe?
É nesse equilíbrio precário que Inimigos da Dor se desenrola por uma Montevidéu noturna e bem distante do cartão postal civilizado que ostenta a capital do Uruguai. Nesse ambiente desembarca um jovem alemão (Félix Marchand), que tem de se virar pela night de Montevidéu. Enfrenta muitas dificuldades, sendo perseguido, agredido e encurralado no banheiro de um bar de oitava categoria. Até encontrar uma parceria à altura na figura de um homem cuja esposa acabou de pedir divórcio (Lucio Hernandez) e um viciado em drogas (Pedro Dalton).
O trio visita o mundo dos deserdados. Na verdade, faz parte dele. São todos perdedores, de alguma coisa em particular, e da vida em seu aspecto mais geral. Perderam as mulheres, os amigos, o respeito próprio e erram em meio à noite como se estivessem num naufrágio. E, no entanto, o que o jovem alemão sinaliza é o percurso de uma busca. De alguém que ele também perdeu e espera recuperar, de maneira improvável, nessa Montevidéu de pesadelo.
O filme é uma coprodução com o Brasil, que aparece de maneira discreta na história. Primeiro, num antro para o qual o protagonista é levado. Numa das paredes imundas, lê-se: “o diabo mora aqui”. Depois, numa igreja de culto evangélico, no qual o pastor, um brasileiro, exorciza seus clientes em portunhol.
Esse é apenas mais um elemento destoante num filme que faz da estranheza o seu centro de gravidade. Dos diálogos que não se completam aos vestuários em andrajos dos atores, das buscas incessantes e fracassadas aos mistérios da solidariedade que emerge em meio à mais violenta carência – tudo isso aponta para um mundo com o qual não estamos acostumados. E nem nos sentimos preparados para aceitá-lo, tão destoante ele nos parece dos valores tidos como consagrados ou “normais”.
A opção fotográfica é pela pouca luz, tanto em cenas noturnas como diurnas. Mas, qualquer que seja a hora do dia, o clima será sempre o da noite. E, nessa noite, os personagens estarão sempre em busca de pontos de luz, mesmo que jamais digam isso ou mesmo o pensem como se pode intuir.
Os Inimigos da Dor não se enquadra no esquema fácil do filme uruguaio de qualidade. Ao menos à primeira vista. Aos habituais diálogos bem escritos, ele contrapõe a dificuldade na comunicação. Ao tom minimalista, prefere o clima de exasperação. Num país de classe média, olha mais para os desafortunados, que estes existem em toda parte, até mesmo no pequeno e criativo Uruguai, país invejável sob tantos aspectos (e até mesmo pela qualidade de um político como Pepe Mujica).
No entanto, ao nos aproximarmos do seu centro duro, notamos aquela coragem de ser lacunar num tempo que pede a explicitação de tudo. Trabalha como uma narrativa que, além de não responder a todas as perguntas, deixa o espectador na dúvida por um bom tempo. Em especial, quando à questão essencial: quem é esse jovem alemão com cara de louco, que desembarca em Montevidéu com uma mão na frente e outra atrás, e o que ele está fazendo tão longe de sua terra?
Por fim, reconhecemos a inspiração humanista uruguaia nessa ternura difícil pela gente miúda. Pela recusa dos heroísmos estereotipados, que muitas vezes ocupam a linha de frente do cinema mainstream do continente. Aqui, não: se heroísmo existe, ele será encontrado nas pequenas causas. Na dificuldade dos reencontros, no esforço do entendimento, numa marginalidade sem traço romântico, na carência material e espiritual que subsiste ao largo da sociedade dos homens normais. E, mesmo quando se insinua uma utopia humanística de convívio, esta será enunciada mais pelas palavras que pelos atos. Num idioma que talvez ninguém entenda.

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