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Os Indomáveis

Luiz Zanin Oricchio

17 Fevereiro 2008 | 21h10

Os Indomáveis é a segunda adaptação da história de Elmore Leonard para o cinema. A primeira, de 1957, foi lançada aqui com o título de Galante e Sanguinário, tendo Delmer Daves na direção e Glenn Ford no papel principal. A versão atual chega em cores, com direção de James Mangold (o mesmo de Johnny & June) e o atual xodó dos estúdios, Russell Crowe, na pele do pistoleiro Ben Wade, o mix de herói e anti-herói na história de Leonard.

Uma bela história, é bom se dizer logo de entrada. No universo muito codificado do faroeste, a trama de 3:10 to Yuma, seu título original, prevê aos personagens uma ambivalência das mais interessantes. O título aponta para um horário e uma cidade. É quando deve sair o trem para levar a julgamento um determinado prisioneiro, o malfeitor Wade, capturado em momento de descuido. Quem o conduz é o rancheiro Dan Evans (Christian Bale), pacato, quase passivo e covarde aos olhos da própria família, mas que, no caso, é movido primeiro pela recompensa, depois por uma curiosa questão pessoal.

O que movimenta o Oeste é o dinheiro. Wade assalta diligências que transportam valores. Os correios põem uma recompensa sobre sua cabeça. Dan está pendurado numa propriedade precária, que interessa aos vizinhos poderosos. Vive sem água e vê-se pressionado a vender. Precisa de grana para resistir. Homem pacífico, como vai dizer não aos US$ 200 pagos para conduzir um bandoleiro ao seu encontro com a justiça?

A história seria menos interessante não fosse a relação ambígua que se estabelece entre os homens. Para que a tensão exista, é preciso que sejam muito diferentes entre si, porém não incompatíveis. Talvez o bandido Wade veja na vidinha pacata de Evans algo que não poderá ter e portanto inveja. Talvez o rancheiro Evans veja em Wade o glamour, a aventura, um certo refinamento no trato com as mulheres, qualidades para ele inacessíveis e que portanto inveja. Essa hipotética admiração mútua – nunca confessada ou explicitada – tornará plausível algo como a colaboração entre agentes com objetivos tão contraditórios. Afinal, o sucesso de Evans implica a prisão de Wade. Ou a fuga de Wade terá como conseqüência a desmoralização de Evans – e aos olhos do seu filho, o que será bem pior.

Essa será uma das diferenças entre a versão de 1957 e a contemporânea. Na atual, a presença de um filho que reivindica ao pai uma posição firme será muito mais marcante. Como se a questão da autoridade paterna se colocasse com muito mais urgência hoje em dia do que na década de 1950 quando a primeira versão do texto de Elmore Leonard ganhou as telas.

No mais, o que se pode dizer é que Os Indomáveis é um faroeste muito bem filmado, com ótimas cenas de ação e todos os ingredientes que tornaram este um gênero clássico do cinema, embora caído em relativo desuso. Mas, enfim, há muito o western já era tido como relíquia da época de ouro do cinema americano, algo do passado, peça de museu, quando em 1992 Clint Eastwood lançou seu magnífico Os Imperdoáveis. Na época escreveu-se que era um faroeste crepuscular, isto é, que indicava a própria morte do gênero e das questões que o sustentavam.

É curioso como a ambientação do Oeste tem servido para ilustrar esse descompasso entre a América épica e o país atual, cheio de impasses e incertezas. É o caso, por exemplo, de Onde os Fracos não Têm Vez, dos irmãos Coen.

É assim também com Os Indomáveis, que não chega ao nível do faroeste de Eastwood. De qualquer forma, é um retorno, melancólico e sintomático, a um tempo de valores como a coragem, o senso do dever, o companheirismo, sólidos mesmo que colocados num quadro de aguda ambigüidade.

(Caderno 2, 15/2/08)