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Os Famosos e os Duendes da Morte

Luiz Zanin Oricchio

08 de abril de 2010 | 13h17

Os Famosos e os Duendes da Morte, estreia em longa-metragem de Esmir Filho (dos curtas Saliva e Tapa na Pantera) faz uma reflexão sobre o mundo virtual e a vida dos jovens. Com base no romance de Ismael Caneppele, filmado no interior gaúcho, com atores não-profissionais, Os Famosos traz todo o sentido de clima que se espera de um diretor de sensibilidade intimista. Na história, são fundamentais os personagens, mas importante também é o ambiente: a bela região gaúcha do Vale do Taquari, com sua paisagem europeia, sua neblina, seu tom que pode ser bucólico quando visto por certo olhar, claustrofóbico, por outro. Tudo é relativo, mas talvez esse mundo isolado seja mais depressivo para jovens que veem o mundo inteiro como seu universo de desejo.

 De qualquer forma, é assim para o adolescente vivido por Henrique Larré, que mata o tédio onde o fazem todos os meninos de sua idade – na internet. É na rede que se manifesta de maneira livre e adota a persona de Mr. Tambourine Man, a canção de Bob Dylan que aparece de forma importante no filme e lhe fornece mais de um sentido possível.

Não é também experiência estranha para quem navega na web a sensação de que os planos do real e do virtual podem coabitar. E nem fica deslocada a impressão de que o mundo virtual pareça por vezes mais palpável que esse imperfeito mundo real. Esse é um efeito de “perda de realidade”, ou de criação de realidades paralelas que, se não chega a ser novidade, encontra em nossa época a sua forma acabada.

Na rede podemos ser outra pessoa, adotar um tipo de personalidade que idealizamos e construímos. Nossos “interlocutores” fazem o mesmo, de modo que um diálogo passa a ser uma conversa cruzada entre imagens. Desse modo, a internet deixa de ser só um modo de comunicação, como inocentemente alguns acham, e passa a moldar formas novas de subjetividade.

Se a insegurança e o sentimento de inadequação juvenis encontram aí o espaço privilegiado para se expressar, Esmir é o cineasta ideal para captar essa forma da sociabilidade moderna. O filme imerge nesse mundo, sem dele se distanciar, o que talvez possa ser a sua limitação natural.

(Caderno 2, 2/4/10)