As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Os Falsários

Luiz Zanin Oricchio

29 de maio de 2009 | 10h28

Houve alguma surpresa quando a produção austríaca de Os Falsários ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Afinal, derrotava o badalado drama de guerra Katyn, de um mestre como o polonês Andrzej Wajda. Vendo-o, compreende-se a opção da Academia. Se Katyn é um drama sólido, que exuma um controvertido episódio da 2ª Guerra Mundial (o assassinato de oficiais poloneses, ora atribuído aos nazistas ora ao exército russo), Os Falsários conta com um personagem de primeira, Salomon Sorowitsch. Além de, também, relatar um caso menos conhecido da 2ª Guerra, essa grande tragédia do século 20 e manancial inesgotável de boas histórias para o cinema, a literatura e a pesquisa historiográfica.

Salomon (interpretado por Karl Markovicz) é um personagem real. Falsário e bon vivant, é preso e encaminhado para um campo de concentração. Lá, junto com alguns colegas com habilidades semelhantes às suas, vê-se engajado num projeto faraônico de falsificação de libras esterlinas e, depois, de dólares. O objetivo era financiar a Alemanha, já carente de recursos. E, também, pela derrama brutal de notas falsas, desestabilizar as economias dos países inimigos. Seria uma vertente de combate que se poderia chamar de “guerra econômica”.

O mais interessante do filme é o dilema sentido pelos prisioneiros. Naturalmente que, para realizar esse trabalho, eles dispunham de privilégios inacessíveis a outros prisioneiros do campo. Tinham alojamento confortável, comida melhor e tratamento mais ameno por parte dos guardas. Do outro lado da parede, no entanto, outros judeus eram tratados com a brutalidade habitual. A equipe de falsários tinha de ouvir, através dos muros, o sofrimento alheio, gritos e assassinatos. E agir como se nada tivessem com aquilo.

Claro que isso criava uma divisão no interior do grupo. Os que pensavam apenas em sobreviver mostravam-se dispostos a colaborar com os nazistas sem pestanejar. Outros, sentiam-se divididos. E, os mais conscientes, decidiram sabotar o projeto, mesmo que com o risco de vida. Afinal, fazer o trabalho bem-feito seria favorecer os alemães e levá-los a uma possível guinada na guerra, que já tendia para os Aliados. O interessante é ver como essa cisão do grupo é tratada sem qualquer maniqueísmo pelo diretor Stefan Ruzowitzky, seguindo o roteiro baseado no livro The Devil?s Workshop, de Adolf Burger.

Salomon é o filtro através do qual corre a narração. E ele é suficientemente ambíguo para dar a essa narrativa cor e vivacidade. É mostrado nos ambientes de que gosta – luxo, boas bebidas, mulheres bonitas – e, em seguida, na penúria e na humilhação dos campos de prisioneiros. Em ambos, é um personagem que mantém a dignidade, mesmo que sob a forma disfarçada da subserviência. É centrado e autoconsciente. Um bicho vocacionado para a preservação de si, mas nem por isso indiferente aos demais.

O filme tem a estrutura de um flash-back. Começa em Montecarlo, no pós-guerra, com Salomon meditando à beira-mar. No que pensa esse homem, que acaba de perder seu dinheiro no cassino e conforta-se observando as ondas? É o que a história contará. Primeiro, mostrando parte de sua vida agitada antes da guerra. Depois como prisioneiro, envolvido no projeto de falsificação dos nazistas.

É uma bonita história, contada com sentido de concisão e economia de recursos. Filme de época, não cai no academismo dos figurinos. Filme de campo de concentração, evita as redundâncias melodramáticas e concentra-se no que a história tem de original. Vale tanto pelo que mostra como pelo que insinua.

(Caderno 2, 29/5/09)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.