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Os Estados Unidos contra John Lennon

Luiz Zanin Oricchio

05 de abril de 2010 | 20h00

Os EUA X John Lennon é um documentário que mostra tanto um momento particular do século 20 quanto um dos seus protagonistas culturais. No caso, o Beatle John Lennon e a politizada campanha contra a Guerra do Vietnã, que apaixonou os jovens do mundo todo nos movimentados anos 1960.

Os diretores David Leaf e John Scheinfeld procuram dosar com imagens e depoimentos a atmosfera de época e a evolução política do mais rebelde dos Beatles. Sim, porque se o conjunto de Liverpool é peça indispensável em qualquer mosaico que se monte sobre aquela época, Lennon foi sua figura de maior destaque. Não apenas porque pensava mais e de maneira mais radical que seus companheiros, mas porque se engajou diretamente na luta política quando isso lhe pareceu indispensável. Essa faceta mais aguda ficou ainda mais em evidência depois de seu casamento com Yoko Ono, a performer e artista plástica que seria sua companheira até o fim. São de Yoko alguns dos bons depoimentos tomados no presente sobre Lennon e aquela época rica e conturbada.

Não faltam explicações psicológicas para o comportamento de Lennon, como o fato fundamental de ter se criado praticamente sem pai e mãe, o que teria moldado uma personalidade propícia à contestação da autoridade. Ele alude ao fato em suas músicas, mas o determinante é que essa atitude ganha relevo em época propícia. Talvez Lennon fosse um gênio rebelde em qualquer época. Mas num período mais conformista, talvez o que pregava tivesse caído no vazio, por falta de gente para prestar atenção ao que dizia. Já naquela época, cada atitude e cada canção engajada tinham efeito de bombas simbólicas, que pretendiam combater as bombas reais que caíam no Vietnã.

De tal forma que, semeando em terreno fértil, Lennon se tornou emblema da juventude. E incômodo para as autoridades, em especial para o governo Nixon. Há evidências de que Lennon teria sido rastreado em tempo integral pelo FBI porque havia se tornado persona non grata nos EUA oficial. O contexto, no caso, é importante. A Guerra do Vietnã não foi popular. Não teve grande apoio do povo americano. Como diz uma das pessoas no filme, não houve uma agressão como a de Pearl Harbour, ou o 11 de setembro, para justificar uma onda de apoio à intervenção no Sudeste Asiático. Para os jovens, em especial, aquela guerra parecia sem qualquer sentido. E, quando os corpos dos soldados começaram a ser repatriados em sacos plásticos (os sinistros body bags), a contestação só fez crescer.

Lennon não estava sozinho em sua luta. Pelo contrário. Vinha de outro país e, nos EUA, já encontrara um ambiente de confronto com o governo formado por ativistas negros, estudantes, intelectuais e jornalistas que denunciavam o envolvimento do país, desastroso, como depois se comprovou.

Os EUA X John Lennon é esse retrato de um homem rebelde e idealista, uma das grandes personalidades do século passado. É, também, um generoso painel de época e seus costumes que, como todas, também é datada. Mas algo fica e se projeta para além de um tempo determinado. Por exemplo, o dever ético de participação dos artistas em causas justas. E, sempre é bom lembrar, o peso da opinião pública como freio natural dos governos de qualquer índole.

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