Os donos da bola
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Os donos da bola

Luiz Zanin Oricchio

18 de dezembro de 2007 | 09h34

joga
Kaká, arrebentando contra o Boca: objetividade

Só deu Brasil na premiação da Fifa: Kaká, Marta e Buru chegaram ao topo de suas categorias. E, sim, Pelé, que havia sido ignorado na cerimônia da confirmação do Brasil como sede da Copa de 2014, recebeu prêmio “presidencial” de Joseph Blatter e depois entregou o troféu de melhor do mundo a Kaká. Afinal, Pelé é a nossa maior personalidade esportiva na opinião de qualquer cidadão, menos na do presidente da CBF.

Enfim, na categoria principal deu Kaká, como era esperado. Mesmo que ele não tivesse jogado nada na partida contra o Boca Juniors seria eleito o melhor do mundo. O que é justo, pois vale o conjunto da obra e o jogador do Milan está em fase “iluminada”, como se costuma dizer. Agora, o fato de ter arrebentando na final do Mundial de Clubes dá ainda mais peso a essa decisão, que pouca gente coloca em dúvida.

A escolha tem sua peculiaridade. Kaká é aquele tipo de atleta que os italianos chamam de “uomo squadra”, que joga para ao time, para o resultado buscado, sem uma firula, sem necessidade de chamar a atenção para si. Economia de recursos, frugalidade no trato com a bola, nem um toque a mais, nem um desvio desnecessário, sempre na vertical rumo ao gol – se bem me lembro, Kaká já tinha essas qualidades no tempo em que era vaiado no São Paulo. Na Europa, as aprimorou. Depurou o que já tinha, jogou fora o excesso e ficou com o simples. Graças a tudo isso, o garoto revelado no Morumbi logo se tornou unanimidade no futebol europeu, para o qual parece ter nascido.

Disse “na Europa”, mas deveria ter precisado que isso aconteceu na Itália, país que tem a sua especificidade. Sim, por mais que o futebol tenha se globalizado, é possível ainda detectar algumas qualidades específicas de cada país. Pelo menos de alguns países. A Itália é um deles e, não por acaso, foi campeã do mundo no ano passado jogando em seu estilo. Um estilo parcimonioso, econômico, pão-duro mesmo. Quem quiser ver espetáculo, vá ao balé. A Itália entra em campo para ganhar. É o modelo do futebol pragmático.

Esse é um antigo tema de debate em botequim: futebol arte ou futebol de resultado? Lembro-me de 1982, quando coube à “medíocre” Itália de Paolo Rossi a ingrata tarefa de enfrentar o Brasil de Falcão, Zico, Sócrates, & Cia, com o resultado que conhecemos. Diziam que a Itália, terra de músicos, pintores e escultores incomparáveis, não merecia um futebol como aquele, sem qualquer complacência com a beleza. São opiniões.

No domingo, depois do jogo, ouvi uma interessante entrevista com José Altafini, o Mazzola, que jogou pelo Palmeiras, seleção brasileira (de 1958) e depois foi continuar carreira na Itália, no Milan, justamente. Mora em Turim e trabalha como comentarista esportivo. Acho que foi Wanderlei Nogueira, na Jovem Pan, quem perguntou a Mazzola por que motivo o futebol italiano, atual campeão do mundo de seleções, e agora interclubes, não conseguia convencer totalmente a opinião pública mundial. Mazzola disse que eles estavam habituados a isso, que o futebol italiano era duro e sem concessões. “Na Espanha são mais festivos”, disse ele, com uma ponta de ironia, imagino. O sentido das palavras, para quem conhece a península, era claro. Deixe que os outros falem e brinquem. Enquanto isso, nós vamos ganhando. Jogando bonito ou feio, vamos ganhando. Esse é o significado daquilo que eles definem como o “vero calcio “. O verdadeiro futebol.

E essa é a Itália de Kaká, o país onde seu jogo floresceu e o conduziu ao posto de melhor do mundo. Foram suas atuações pelo Milan que o levaram até lá e não, certamente, os jogos que fez pela seleção brasileira.

(Esportes, Coluna Boleiros, 18/12/07)

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