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Os Descendentes

Luiz Zanin Oricchio

23 de janeiro de 2012 | 13h29

Os Descendentes, de Alexander Payne, é narrado em primeira pessoa, assim como o romance de estreia da escritora Kaui Hart Hemmings, que lhe dá origem.

Esse narrador é Matthew King (George Clooney, em um dos seus melhores papéis), herdeiro rico, com a mulher em coma e duas filhas que praticamente desconhece. A história é a da (penosa) reconstrução da estrutura familiar numa situação em que a mãe está à beira da morte.

A história se passa no Havaí, onde cresceu e vive a autora. A primeira providência é desmistificar o lugar como sinônimo do paraíso. Lá as pessoas vivem, sofrem, adoecem e morrem. Brigam entre si, como em toda parte. Traem-se, alimentam sentimentos mesquinhos em relação aos outros. Mas também se alegram, passeiam, amam, vivem. É um lugar entre outros. Só que bonito de dar gosto.

Mas, apesar das boas paisagens, Payne tem o cuidado de evitar padrão cartão postal. Afinal de contas, é mesmo a paisagem interna do protagonista, Matthew, Matt para os íntimos, que conta. Com seu ar de cinquentão charmoso, Clooney encarna com perfeição esse tipo obrigado a passar a limpo sua existência enquanto a mulher luta pela vida no hospital e ele tem de resolver se vende ou não uma grande propriedade à beira do mar da qual se tornou curador. O resto da família quer que ele venda, mas Matt não está seguro. Além disso, pairam dúvidas sobre a fidelidade da esposa moribunda.

Enfim, é um filme de crise e de redefinição de valores quando metade da vida já passou. O texto original leva em direção a situações potencialmente piegas, armadilhas evitadas com cuidado por Payne. Quando tudo está ficando muito solene, ele introduz o humor. Quando a emoção se faz presente, ele não a sublinha ainda mais, pois sabe que a fronteira com a pieguice está próxima. Ninguém precisa adicionar açúcar ao doce, como costuma fazer, por exemplo, Spielberg. Payne é mais contido. O espectador sensível agradece. Pode se emocionar sem ser feito de bobo.

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