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Preconceito contra os curtas-metragens?

Luiz Zanin Oricchio

18 de agosto de 2010 | 17h02

Uma leitora deixou comentário no blog queixando-se de que eu não havia escrito nada sobre os curtas-metragens em meu balanço. Não é uma queixa isolada. Em seu blog, o cineasta Cavi Borges queixa-se de que os jornalistas não escrevem críticas sobre os curtas e nem vão aos debates com os curta-metragistas. Magoado, Cavi ainda diz que os jornalistas em festivais se julgam estrelas de primeira grandeza, com direito a mais brilho que os próprios cineastas que apresentam seus filmes. Não sei de onde ele tirou isso. Mas no geral as queixas procedem.

E, em tese, concordo com elas. Na minha opinião, os curtas-metragens deveriam ser objeto de crítica tão atenciosa quanto os longas. Precisamos saber por que isso não acontece.

Em Gramado, do jeito que foi este ano, é fácil entender: houve falta de espaço e tempo. Nos jornais, o espaço é físico, papel, por isso limitado. Mesmo para os longas. O que se faz, de maneira geral, é uma cobertura tipo diário. Você usa o espaço que lhe dão para dizer o que aconteceu no festival durante o dia anterior: os filmes apresentados, as entrevistas, as coletivas, o clima, etc. Como um diário de bordo, no qual só são possíveis alguns pitacos críticos. Fica difícil aprofundar alguma coisa.

Na internet, a coisa muda de figura. O espaço físico é ilimitado. Mas o fator limitante é o tempo. Gramado optou por uma programação massacrante. De manhã havia coletivas e debates. Às 14h começavam as sessões da mostra Panorama que, este ano, também foi competitiva. Às 17h, os curtas. Às 19h, o primeiro longa e, às 21h, o segundo. Não havia praticamente intervalos.

Veja o meu caso. Este ano, fui a Gramado para integrar o júri da crítica. Escrevi sobre o festival apenas no blog. Mas, mesmo assim,  senti enorme dificuldade em encontrar tempo para postar alguma coisa. Mesmo os comentários sobre os longas são sumários demais. São todos eles filmes sobre os quais ainda quero escrever, com mais calma, tempo e espaço.

Considero o festival uma primeira oportunidade para ver os filmes sobre os quais você terá de voltar no futuro. Inclusive revendo-os antes de escrever porque num festival os concorrentes são vistos em escala industrial, desumana e injusta. Qualquer diretor sabe disso. Expor seu filme em um festival é jogá-lo numa arena onde talvez seja apreciado por um espectador cansado e provavelmente já empanturrado por uma dieta cinematográfica das mais adiposas. Isso vale para o público, para a crítica e também para o júri.

Nesse sentido, o festival mais civilizado que conheço é o de Brasília. Nele, há apenas seis longas e doze curtas em concurso. Um longa e dois curtas por noite. Que são debatidos, à exaustão, no dia seguinte. E podem ganhar espaço melhor nos jornais, blogs e sites. Costumo cobrir Brasília há muitos anos e sempre procuro reservar aos curtas um espaço em minha matéria diária.

Em Gramado não dá, é quase impossível durante o festival. Em Veneza, para onde vou daqui a duas semanas, completamente inviável. A estrutura dos festivais leva a essas distorções. E os curtas acabam prejudicados.

Mesmo assim, convém dizer, lutando contra limitações de tempo e espaço, muita gente comentou os curtas em suas matérias, como foi o caso de Neusa Barbosa, que escreveu para o UOL.

Como consolo, se servir para alguma coisa, posso garantir que, no júri da crítica, usamos o mesmo tempo de discussão para os longas e para os curtas.

Discussão bem proveitosa, falando nisso.

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