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Os clubes e os ‘professores’

Luiz Zanin Oricchio

19 Fevereiro 2008 | 19h43

Vamos fazer um exercício de ficção e supor que amanhã Muricy Ramalho deixe o São Paulo. Digamos que recebeu uma proposta irrecusável do ‘mundo árabe’, como eles costumam dizer, e tenha resolvido se mandar. O clube seria afetado? Certamente. Nenhuma instituição perde um profissional dessa categoria sem nada sentir. Nós mesmos talvez tivéssemos saudades do engraçado mau humor de Muricy, quem pode saber? Mas alguém aí imagina que o São Paulo sentiria o chão tremer sob os pés sem a proteção do técnico? Sua ausência provocaria um tsunami no Cícero Pompeu de Toledo? Veríamos os cavaleiros do apocalipse soltos pelas bandas do Morumbi? Choro e ranger de dentes? Presságios de fim de mundo?

Claro que não. Passada a primeira surpresa, a direção nomearia um interino e começaria a procurar substituto. Muricy teria esvaziado o armário e levado seus pertences; se despediria do elenco e da direção com protestos de estima recíprocos. O resto ficaria por ali. A estrutura permaneceria intocada e o São Paulo daria continuidade à vida, sem maiores sobressaltos. E é assim que se faz. Nenhum profissional, por melhor que seja, é maior do que a instituição que o abriga.

Como exemplo contrário, vejam o que aconteceu com o Santos. Após a saída de Luxemburgo, o clube parece que entrou em colapso e ninguém mais se entende na Vila Belmiro. Não é que o Santos enfrente dificuldades, como qualquer um teria pela perda de profissional de gabarito. Entrou em queda livre e não consegue se firmar. Aliás, quanto mais tenta se acertar, pior fica. Por que isso acontece? Por vários motivos, sem dúvida. Mas o principal deles é que, quando saiu Luxemburgo, saiu com ele uma equipe inteira e toda uma filosofia de trabalho. Até aparelhos de fisioterapia foram levados. Não foi um profissional que deu adeus. Foi um planejamento que ruiu. Foi-se a ‘estrutura Luxemburgo’ e não havia nada para colocar no lugar. Agora, pergunto eu: como é possível a um clube dessa grandeza – o clube de Pelé, ora! – depender a esse ponto de um único profissional e sua equipe? Não é passar um atestado de incompetência à própria organização e método de funcionamento?

Acho que o caso do Santos deveria ser estudado por outros clubes, em especial pelo Palmeiras, atualmente sob comando de Luxemburgo. Os resultados da competente atuação de Luxa começam a aparecer, como na vitória de 4 a 0 sobre o Juventus. Os palmeirenses têm justos motivos para euforia, pois o time dá mostras de estar se tornando um todo coerente, com princípio, meio e fim. Deverá trazer alegrias sob a forma de bons jogos, espetáculo, vitória e títulos.

Paradoxalmente, é nesse ponto alto, no momento mesmo do otimismo, que a direção do Palmeiras deveria já começar a pensar na futura era pós-Luxemburgo. Mais dia menos dia ele sai, como é da natureza dessa atividade chamada futebol e que se tornou tão instável. O que não pode acontecer é que a sua saída signifique a ruína de toda uma organização, como aconteceu no Santos. Está mais do que na hora de os clubes se fortalecerem e montarem estruturas mais permanentes e menos sujeitas aos caprichos dos professores. Eles são transitórios, os clubes são definitivos. Desse modo talvez houvesse menos crises artificiais (mas nem por isso menos dolorosas) como essa que ameaça levar o Santos à Segunda Divisão do Paulista.

(Coluna Boleiros, 18/2/08)