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Orwell, anarquista conservador

Luiz Zanin Oricchio

28 de setembro de 2008 | 20h29

Philippe Sollers comenta, na revista Le Nouvel Observateur, duas novas biografias de George Orwell (George Orwell, une Vie, de Bernard Crick, e Orwell, Anarchiste Tory, de Jean Claude Michéa), além de uma coletânea de textos do autor de 1984 – A ma Guise. Chroniques.

Quer dizer, Sollers comenta os livros à maneira de um escritor criativo. Não se ocupa em resumi-los, ou avaliar seus pontos fortes ou fracos. Busca uma questão, um tema, que funcione como linha de pensamento subliminar, e que conduza a uma de suas preocupações como intelectual. E qual é essa linha abaixo da superfície? Um velho cavalo de batalha das controvérsias políticas do século 20: com sua crítica do stalinismo, teria Orwell se convertido em empedernido anticomunista?

Nada mais falso, de acordo com a interpretação de Sollers. Orwell manteve-se sempre crítico, e portanto sempre de esquerda. É sua tese. Mesmo se Sollers leve em conta que “Orwell foi o primeiro a compreender que o fascismo não era, como toda a esquerda repetia na época, um câncer do capitalismo avançado, mas uma sinistra perversão do socialismo”. Êpa, eis aí um ponto polêmico. Ainda mais quando respaldado por uma das crônicas de Orwell, na qual ele afirma que, depois de ter conhecido por dentro o funcionamento dos partidos de esquerda na Espanha, havia tomado horror pela política.

Pode parecer um comentário anticomunista, mas Sollers recomenda cuidado. Manda reler os textos de Orwell sobre sua experiência com o proletariado inglês, uma reserva de “decência”, como ele dizia e escrevia. Um amigo de Orwell, Cyrill Connolly, se queixava de que Orwell não podia assoar o nariz sem fazer um sermão sobre as más condições de trabalho nas indústrias de lenços. E vai por aí.

Eis o nó da questão: Orwell podia permanecer profundamente de esquerda apenas e tão somente porque garantia para si a liberdade de criticar tanto os atos quanto a linguagem da esquerda. Sollers relembra que a questão da linguagem, em particular, era uma das obsessões de Orwell. Basta lembrar da “novilíngua” de 1984, forma de dominação que consiste na apropriação e deformação do sentido das palavras, a tal ponto que uma casa de tortura podia ser chamada de Ministério do Amor, ou algo que o valha. Quando as palavras perdem sentido, o homem também se perde. A crítica implacável pode ser um antídoto a essa desumanização – eis o que, no fundo, sustentava esse anarquista conservador.

(Cultura, Revista das Revistas, 28/9/08)