Orson Welles, 100 anos
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Orson Welles, 100 anos

Luiz Zanin Oricchio

06 Maio 2015 | 09h13

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Orson Welles faria 100 anos hoje. E o que mais dizer desse artista, e dessa obra, sobre os quais já se gastou uma floresta de papel e rios de tinta? Simplesmente que é inesgotável. Isto é, há sempre algo mais a ser dito, como acontece com os clássicos. Não por acaso, aquele que é considerado o grande especialista contemporâneo em Welles, o crítico norte-americano Jonathan Rosenbaum, intitula seu livro fundamental de Discovering Welles. Descobrindo Welles. Por que o gerúndio? “Porque a compreensão de sua obra é um processo, jamais terminado”, disse Rosenbaum durante sua visita ao Brasil, mês passado, por ocasião do É Tudo Verdade, festival de documentários cujo nome adota o título do filme inacabado de Welles, rodado no Brasil.

 

Esse fato nos fornece um atalho para lembrar que a relação de Welles com o Brasil foi e continua a ser muito importante em sua biografia. Foi para cá que Welles, já uma celebridade, veio filmar uma obra de encomenda, parte da política da boa vizinhança de Roosevelt, em plena 2ª Guerra Mundial.

 

Era 1942, e o filme se chamaria It’s All True – É Tudo Verdade. Incluiria um episódio no México, chamado My Friend Bonito. Welles, ocupado com a finalização do seu segundo longa, Soberba (The Magnificent Ambersons), passou essa tarefa ao cineasta Norman Foster. O próprio Welles veio ao Brasil filmar o carnaval, e também uma história de jangadeiros que havia sido capa da revista Time. Esses quatro homens viajaram numa jangada de Fortaleza ao Rio de Janeiro para reivindicar direitos trabalhistas ao presidente Getúlio Vargas. A navegação ficou famosa e Welles quis reproduzi-la no filme. Na reconstituição, uma onda virou a embarcação e e o líder dos jangadeiros afogou-se. Mesmo assim, e enfrentando a oposição do estúdio RKO, Welles continuou a filmagem, agora como homenagem a Jacaré. O filme foi engavetado e redescoberto apenas em 1985 por um diretor da Paramount, Fred Chandler. Por fim, em 1993, Bill Krohn e Myron Meisel lançaram o documentário É Tudo Verdade – Baseado em um Filme Inacabado de Orson Welles. O material referente à saga dos jangadeiros é esplêndido, filmado por Welles e fotografado por George Fanto. Poucas vezes o Brasil e sua gente foram registrados em película de forma tão bela.

 

Essa passagem da biografia de Welles é relembrada por ele como ponto traumático de sua carreira. Na imensa entrevista, dada ao longo de dez anos ao também cineasta Peter Bogadanovich (Este É Orson Welles, Globo, 1992), o diretor a relembra nos seguintes termos: “O episódio sul-americano é o desastre-chave da minha história…a lenda que nasceu daquele caso me fez perder a chance de filmar.” Welles ficou com a fama de um louco que desperdiçava dinheiro dos estúdios. Criou-se o mito e, como se sabe, clichês aderem às pessoas como ostras à rocha. Welles carregou o estereótipo ao longo de toda sua vida. A verdade, como lembra o diretor e produtor Richard Wilson, amigo de Welles desde os tempos do Mercury Theater, pode ser outra: “Tendo recebido um pedido para fazer um filme não-comercial, Welles foi depois censurado por ter feito um filme não-comercial”. Preconceitos não precisam de base de realidade para se estabelecer e se manter.

 

Essa estada brasileira de Welles tornou-se matriz do cineasta brasileiro Rogério Sganzerla, papa do Cinema dito Marginal e autor de uma das obras-primas do cinema brasileiro, O Bandido da Luz Vermelha (1968). Sobre Welles e sua “desastrada” experiência cinematográfica nos trópicos, Sganzerla filmou Nem Tudo É Verdade (1986), Tudo É Brasil (1987), A Linguagem de Orson Welles (1990) e O Signo do Caos (2003), seu último filme e testamento.

 

A atriz e diretora Helena Ignez, viúva de Sganzerla, conta que o marido, desde os 17 anos de idade, admirava e escrevia sobre Welles. “Era uma devoção, que se transformou em diálogo de obras, mesmo que os dois jamais tenham se conhecido pessoalmente.” Helena conta que Sganzerla ficou chocado ao saber da morte de Welles, em 1985. “Foi como se tivesse falecido uma pessoa da família”, diz. A morte de Welles veio num momento em que seu amigo Richard Wilson, havia por fim marcado um encontro entre ele e Sganzerla. De qualquer forma, a inspiração de Welles foi fundamental para a obra de Sganzerla, em sua leitura, digamos assim, tropicalista da passagem do autor de Cidadão Kane pelo Brasil. A vitalidade do país, e, ao mesmo tempo, a condição trágica de sua cultura aparecem em filmes como Tudo é Brasil e O Signo do Caos, através da figura interposta de Welles. Um grande diálogo entre artistas que não se conheceram. “Ouvi do curador da grande Mostra retrospectiva de Welles no Festival de Locarno, quando ele nos pediu o direito de exibição de Nem Tudo é Verdade, que nenhuma mostra internacional sobre Orson Welles seria completa se não tivesse um filme de Rogério. Bill Khron, diretor do documentário It’s All True, fez uma referência extraordinária: que assim como o século vinte foi de descoberta da obra de Orson Welles, o vinte e um será o da descoberta do cinema de Rogério Sganzerla.”, diz Helena Ignez.

 
Via Sganzerla, mas também por via direta, Welles atingiria a geração mais jovem do cinema brasileiro, em especial em Pernambuco, epicentro do melhor cinema de autor praticado hoje no País. That’s a Lero Lero (1994), de Lírio Ferreira e Amin Stepple, faz ficção sobre uma visita real de Welles a Recife durante a filmagem de It’s All True. Na verdade, uma grande farra, durante a qual, entre bares e cabarés, Welles troca ideias com jornalistas locais. Desse veio nasceria o novo cinema pernambucano, batizado de Árido Movie, com seu longa inaugural, Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, marco fundador do novo cinema pernambucano e seus autores, rebeldes e criativos, como Lírio e Paulo, Claudio Assis, Hilton Lacerda e outros. Autores de filmes que trazem uma inequívoca marca wellesiana.

 

As filmagens e o convívio com Welles em Fortaleza também foram registrados e deixaram marcas na produção local. O ensaísta Firmino Holanda escreveu um livro fundamental sobre o assunto – Orson Welles no Ceará (Edições Democrito Rocha, 2001). Holanda, em parceria com Petrus Cariry, dirigiu também um bonito filme sobre o episódio dos jangadeiros – Cidadão Jacaré. Este ano, em junho, o festival Cine Ceará presta homenagem a Welles e relembra sua experiência no nordeste brasileiro.

 

De qualquer forma, se para o Brasil a conturbada passagem de Welles gerou bons frutos, para ele mesmo pode ter sido problemática e mesmo trágica. Nunca mais readquiriu a confiança dos produtores e teve de fazer seus filmes com muita dificuldade, de maneira independente (o que, por outro lado, beneficiou a autoria desses filmes).

 

O fato é que, durante muito tempo, Welles foi considerado cineasta de uma obra só, tamanha a influência de Cidadão Kane que, apesar de ocupar durante muito tempo o topo do cânone do cinema de autor, não foi a unanimidade que se pensa. Houve tentativas de diminui-lo e obras famosas relativizam o mérito de Welles no próprio filme. A mais conhecida talvez seja Rising Kane (Criando Kane), da crítica da New Yorker Pauline Kael, tentativa de colocar o roteirista Herman Mankiewicz como grande responsável pelas qualidades de Kane. Welles nunca negou a importante participação de Mankiewicz na obra – inclusive é do roteirista a invenção de “rosebud”, a última palavra pronunciada por Kane no leito de morte e cujo significado desconhecido estrutura toda a narrativa. Mas o fato é que, do roteiro ao filme o caminho é longo, como sabemos todos.

 

Aos poucos as outras obras de Welles foram se impondo. A Marca da Maldade, Grilhões do Passado, F for Fake (Verdades e Mentiras) e mesmo as inacabadas como Quixote. Michelangelo deixou Pietàs inacabadas e não menos comoventes por isso. Ver Fallstaff, restaurado, é uma experiência que não se esquece. E, se essas obras não atingiram a altura de Kane (como poderiam?), mostram um cineasta sempre inquieto, renovador, corrosivo, jamais satisfeito com a forma atingida e dominada. Marcas, portanto, da modernidade e suas relações com a incompletude.

 

Welles morreu em 1985, mas o velho mago ainda deixou um último coelho a ser tirado da cartola – seu inédito The Other Side of the Wind, O Outro Lado do Vento, cujo lançamento vem sendo prometido para este ano. O filme, alusivo à própria história de Welles, traz o confronto entre um velho diretor (John Huston) e um novo (Peter Bogdanovich). Esse filme, problemático, tem sido anunciado anos a fio, mas sempre esbarra num cipoal jurídico de direitos autorais. Parece que está prestes a ser desenredado, como anunciou reportagem recente do jornal New York Times. Os direitos do filme, no qual Welles trabalhou durante os últimos 15 anos de vida, estão divididos entre sua última mulher, Oja Kodar, a filha, Beatrice Welles, e uma companhia franco-iraniana, L’Astrophore. Oja diz que, motivadas pelo centenário de Welles, as partes estão chegando a um acordo. Tomara. Semana que vem Oja Kodar desembarca no Brasil e pode ser portadora dessa boa notícia. Seria uma espécie de justiça poética, reencontro de Welles com o Brasil.

 

 

 

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