Orlando Villas Bôas, contador de causos
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Orlando Villas Bôas, contador de causos

Luiz Zanin Oricchio

20 de outubro de 2006 | 17h38

orlando

Ainda não li o livro Orlando Villas Bôas – Expedições, Reflexões e Registros. Não li e já gostei, porque não tem como ser ruim. O grande sertanista foi um dos maiores contadores de histórias que já conheci e um livro que relata suas experiências só pode ser muito saboroso.

Uma vez, muitos anos atrás, fui entrevistá-lo para o jornal. Coisa pouca, imaginei, meia hora de papo dava e sobrava para o espaço a mim destinado. Fiquei em sua casa a tarde inteira. Ele falando, eu ouvindo, fascinado. Pelo relato de Orlando, o universo indígena passava a ter vida própria, como se ele estivesse contando tudo aquilo em volta de uma fogueira, em pleno Xingu.

Enquanto falava, Orlando ilustrava as histórias mostrando objetos indígenas de sua coleção. Pegou uma panela de barro, enorme, decorada com o maior capricho em sua parte de baixo. Desenhos lindos que, adivinhava-se, eram muito difíceis de fazer e deviam ter levado um tempão para serem pintados. Orlando olhou para a panela, olhou para mim e disse: “O universo do índio é diferente”. Indaguei por quê.

Ele então me contou que os índios levavam semanas preparando essas panelas pintadas. Quando estavam prontas, eles as levavam ao fogo para cozinhar os alimentos e os desenhos logo ficavam arruinados. Orlando perguntou a um índio velho por que então tinham tanto trabalho para decorar as panelas se na primeira vez em que eram usadas as pinturas se perdiam. O índio olhou para ele com infinita piedade diante de tanta ignorância e disse:
– Se não pintar, não é panela, ué.

O livro Orlando Villas Bôas – Expedições, Reflexões e Registros será lançado no dia 26, quinta-feira, a partir das 19h, no Memorial da América Latina

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