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Ôrí, o ritual como prática da liberdade

Luiz Zanin Oricchio

22 de maio de 2009 | 15h30

Ôrí, em idioma iorubá, quer dizer cabeça e, por extensão, consciência negra. Dá título ao filme de Rachel Gerber, relançado agora depois de 20 anos de concluído. É um trabalho que levou 11 anos para ser feito – de 1977 a 1988 – e leva as marcas desse trabalho paciente e sem pressa. Com imagens belíssimas e texto poético, monta um painel fragmentário sobre a presença do negro na cultura brasileira.

Seu fio condutor é assumido pela historiadora e militante da causa negra Beatriz Nascimento (1942-1995), que narra em off e é também a autora dos textos. Uma mescla de considerações históricas e antropológicas com uma visão mítica e, portanto, cerimonial da presença africana na cultura brasileira e mundial.

O que se vê na tela são cenas tomadas em países africanos e no Brasil. Cerimônias mescladas a congressos e reuniões universitárias sobre a questão do negro no País. Candomblé e escolas de samba. Preces de ano-novo a iemanjá e depoimentos e música de famosos como Gilberto Gil. Tudo fotografado com raro senso de beleza pelo cineasta Hermano Penna (de Sargento Getúlio) e música de Naná Vasconcelos, que imprime tom ritual à trilha.

Apesar da narrativa em off, o filme não assume tom expositivo. Pelo contrário. Por sua estrutura fragmentária, abre espaço para reflexão e não teme abraçar contradições. Por exemplo, nos muitos debates ocorridos na época discutia-se acirradamente se o movimento negro seria uma causa específica ou estaria atrelado à luta de classes de maneira geral. Pode parecer incrível, mas essa polêmica parecia tão importante nos anos 70 que os oponentes mais acirrados quase chegavam às vias de fato durante os debates.

Há em Ôrí esse lado de documento de época, e também um aspecto menos datado quando faz de Zumbi dos Palmares o herói civilizador. Nesses momentos, o filme assume tom e colorido de um épico. Que também oscila pela poética da fala e das imagens e pelo belo achado de aproximar manifestações tão distintas quando um debate universitário e um transe de candomblé, um congresso internacional da causa negra e uma apresentação de escola de samba durante o carnaval. Podem todos ser vistos como rituais iniciáticos de uma prática de libertação. Liberdade é a palavra que dá sentido ao filme.

(Caderno 2, 22/5/09)

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