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Onde foi parar a antiga paixão?

Luiz Zanin Oricchio

25 de setembro de 2007 | 19h48

Num dos episódios de Boleiros, de Ugo Giorgetti, o treinador interpretado por Lima Duarte se vira para uma dondoca (Marisa Orth) e diz: ‘A senhora não sabe o que é um Palmeiras e Corinthians!’ A cena é muito engraçada porque Marisa vive a gostosona que está no hotel a fim de dormir com o melhor jogador do Palestra, talvez prejudicando seu desempenho no dia seguinte. Mas fica mais engraçada ainda porque Lima, com aquela cara séria e irônica ao mesmo tempo, quer lembrar à madame a grandeza óbvia daquele clássico, o jogo dos jogos, o embate de maior importância nesta nossa velha São Paulo.

Todos nós, que nos formamos no futebol paulista, sabemos disso. Podemos não torcer para qualquer um dos dois (ou torcer contra os dois), mas respeitamos a rivalidade ancestral, cozinhada ao longo de décadas e destilada em partidas memoráveis, lances geniais, demonstrações de raça e gols de antologia. É um pouco como o Fla-Flu, o clássico cantado por Nelson Rodrigues como sendo anterior ao Gênesis. Ramos da mesma árvore, Nelson Rodrigues dizia também de Flamengo e Fluminense que eram os Irmãos Karamazov do futebol, fraternidade de origem comum e tingida de ódios e ressentimentos, o que só fazia apimentar cada novo encontro entre eles.

Há uma lenda urbana aqui em São Paulo que fala da origem comum de Palmeiras e Corinthians. Não sei se é verdadeira, desconfio que não, mas que importa? Irmãos ou não, a rivalidade entre os dois clubes é histórica e data de 90 anos, pontuada por fatos notáveis. Para ficar apenas nos tempos mais recentes: quem não se lembra, por exemplo, das batalhas pelas Libertadores de 1999 e 2000, ambas favoráveis ao Palestra, decididas na agonia dos pênaltis? Ou do então corintiano Viola, imitando um porco depois de marcar um gol, insulto que depois se tornou mascote e símbolo do Palmeiras? Ou das embaixadinhas debochadas de Edílson, que geraram antológico quebra-pau? Enfim, Palmeiras e Corinthians fazem parte da nossa história futebolística e naquilo que ela tem de melhor, de mais intenso e saboroso.

Por isso mesmo não deixa de ser triste ver um clássico desse porte ser jogado como foi no domingo. Seria redundância dizer que faltou técnica, pois esta é qualidade quase abolida no atual futebol no Brasil. Deve-se dizer que o Palmeiras fez a sua parte, dominando amplamente o jogo. E que, se alguma técnica houve, ela se deve a Valdivia, em lances isolados, e a Felipe que, com suas defesas, evitou desgraça maior para o Corinthians. Mas o pior, nessas circunstâncias, não é nem a falta de técnica, mas a ausência de emoção num clássico frio, assistido por apenas 18 mil pessoas no Morumbi. Onde foi parar a paixão de outrora?

Sabemos que clubes podem sobreviver anos a fio em filas que parecem intermináveis, e o próprio Corinthians é a maior prova disso. Nos tempos de vacas magras, quando o time era muito ruim, a própria torcida o ironizava, apelidando-o de ‘Faz-me Rir’, título do samba em moda na época. Mas não deixava de ir ao estádio. Dizem que a torcida cresceu nos anos de desgraça. Hoje nem isso se vê. E por quê? Porque é mais fácil sobreviver à adversidade do que a uma associação escusa, dessas que sugam a alma de um clube. O Corinthians vai beber até a última gota de fel dessa parceria malfadada. Exige uma refundação, em regra, que honre a sua própria tradição.

(Estadão, Esportes, Coluna Boleiros, 25/9/07)

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