Onde Está meu Coração 
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Onde Está meu Coração 

Luiz Zanin Oricchio

16 de julho de 2021 | 12h42

Leticia Colin

Em dez episódios, Onde Está Meu Coração traz a história da médica Amanda (Letícia Colin), que se torna dependente química. 

Amanda faz residência em um hospital e é mostrada como profissional jovem, idealista, dedicada. Aquele tipo de médico que jamais desiste de um paciente e luta até o fim pela vida de quem está sob seus cuidados. Um dramático atendimento de urgência dá testemunho da seriedade com que encara sua profissão. Uma jovem drogada surge no pronto-socorro e sofre uma parada cardíaca. Massagens no peito, estimulação elétrica – tudo parece em vão, e os colegas de Amanda desistem. Mas, num último esforço da médica, o coração da paciente volta a  bater. Ela venceu a morte, pelo menos naquela ocasião. 

Esse atendimento tem tudo a ver com a própria Amanda. Fala do seu caráter, da sua tenacidade, do bem que deseja fazer aos outros. Diz muito também de seus conflitos. Ela vive com o arquiteto Miguel (Daniel de Oliveira), parecem felizes, modernos, sem preconceitos. Usam às vezes alguns aditivos, de maneira recreativa, como se diz. Mas Amanda está prestes a perder o controle sobre as drogas. E será esse o drama a movimentar a série. 

O texto, escrito por George Moura e Sérgio Goldenberg, entra por caminhos pouco usuais. Num deles, faz do crack, droga associada à classe baixa, a substância a ameaçar Amanda, uma filha da classe alta. O pai, também médico, Davi ( Fábio Assunção) e a mãe, Sofia (Mariana Lima), uma empresária do Porto de Santos, moram numa casa que, com perdão do clichê, parece coisa de cinema. 

Tudo é chique, das roupas aos carros, tudo é fino e de bom gosto, do penteado aos vinhos, tudo os definem como habitantes do vértice da íngreme pirâmide social brasileira. No entanto, lá está a filha dileta, formada em Medicina, às voltas com uma substância cujo nome define uma das regiões mais trágicas da sociedade paulistana, a Cracolândia. Aliás, justo nesse ambiente, num dos episódios mais pesados da série, a pobre Amanda irá rastejar, atrás de uma mísera pedrinha que aplaque por momentos a fissura de dependente química. 

De certa forma, esse é um dos atrativos da série, ao colocar em contato extremos sociais que raramente se tocam, a não ser em situações-limite. E a dependência química é uma delas, sem dúvida. 

O outro acerto é o tratamento dramático, porém nada moralista, dado à questão. A abordagem é adulta, não tangencia pontos espinhosos como as dificuldades da recuperação – as recaídas, o desespero dos familiares, o amor misturado com a raiva, esse blend indigesto que essas situações produzem. 

 Às vezes a série é meio didática, dirigindo ao público sua “mensagem” de maneira mais explícita. Mas isso é raro. De maneira geral, embute o que deseja dizer na construção da dramaturgia, com toda a ambiguidade que a situação comporta. O bom é que mistura, com equilíbrio, emoção e razão, trazendo informação de qualidade ao público. 

Na contraluz, a série também questiona a distinção entre substâncias lícitas e ilícitas, uma fronteira imprecisa, delimitada mais por interesses econômicos que por razões médicas, ou sociais. Assim fazendo, põe em xeque o dogma policialesco do combate às drogas, artigo de fé contemporâneo, no Brasil e em outras sociedades atrasadas. 

Na verdade, a história passa mais dúvidas e questionamentos do que certezas. Claro que Amanda está metida numa fria ao se tornar dependente de crack. Pode perder tudo, do marido à profissão e o respeito a si própria. Pode mesmo perder a vida. Tem de lutar. E contar com um apoio que não lhe faltará.  

Mas há pólos de atrito, do contrário tudo seria plano e cor de rosa. Nem se fale de traficantes e outros exploradores. A questão é que, às vezes, o “inimigo” mora em casa. O fanatismo religioso e seus malefícios afloram onde menos se espera, em Júlia, irmã de Amanda, interpretada por Manu Morelli. A rivalidade, um trauma antigo, a rigidez moral, tudo isso talvez explique a sabotagem, possivelmente inconsciente, à cura da irmã. Também há o pai. Vivendo seus próprios problemas com substâncias químicas, além da instabilidade emocional, Davi não se mostra lá em condições de ajudar quem caiu no fundo do poço. 

Agora, se existe personagem próximo da vilania, é a Vivian, de Camila Márdila (de Que Horas Ela Volta?). Egoísta e rica, parece não encontrar limites para alcançar quem deseja. Mesmo assim não é caricata e sua cega infantilidade supera a maldade.

As boas interpretações da própria Letícia Colin e também de Fábio Assumpção e Mariana Lima, pai e mãe de Amanda, contribuem para a credibilidade da história. Alguns excessos da (ótima) trilha musical a enfraquecem um pouco em certas sequências. Tudo é questão de dosar – e a estética televisiva às vezes exagera. Também acontece no cinema, diga-se. 

Fiel ao projeto de não acusar e dispensar atitudes moralistas, Onde Está Meu Coração flui sem necessidade de se apoiar em heróis ou vilões. Há apenas seres humanos envolvidos, com seus momentos de grandeza e miséria, egoísmo e desprendimento, força e fragilidade. Já é o bastante.    

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