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Onde andará Paulo Henrique Ganso?

Luiz Zanin Oricchio

09 de agosto de 2011 | 09h35

Assisti a Santos x Ceará e fiquei procurando Paulo Henrique Ganso em campo. Sim, de vez em quando ele estava lá, reconhecível nos passes de classe, refinados e quase sempre certeiros. Mas, de certa forma, era como se não estivesse. Encontrava-se ausente, como em outros jogos. O que será isso? Apenas a tão famosa “falta de ritmo”, uma daquelas explicações que servem para tudo, e portanto para nada? Não, me parece que as razões são mais profundas. Insondáveis até.

Podemos apenas especular sobre elas porque, no fundo, ninguém sabe o que vai pela alma de um homem. Mesmo que seja um homem jovem, desses que, como gostamos de dizer, têm a vida toda pela frente.

O que acontece é que Ganso parece estar atingido por alguma espécie de banzo, uma melancolia dessas que tiram o ânimo do cidadão diante da vida. Em tempo: não estou escrevendo esta coluna para perseguir o rapaz. Nem para cobrar-lhe garra, raça, ou qualquer coisa do tipo. Não faz meu gênero. Tento apenas entendê-lo. E o faço porque me lembro, com saudade, daquele jogador da final do Paulista de 2010, que recusou sair de campo quando o treinador Dorival Jr. quis substituí-lo. Muita gente viu no gesto um ato de indisciplina.

Eu não. Vi amor ao clube e amor ao jogo. Aquela sensação que jogadores raros têm de que o momento exige um líder e ele é o único em condições de exercer esse papel. Ganso soube sentir o momento e esteve à altura dele. Pressenti ali o nascimento de um grande jogador. Não apenas pela categoria excepcional do seu futebol, inquestionável, mas pelas provas de maturidade, equilíbrio e liderança dadas por um jovem. Qualidades que, separadas, já são muito difíceis de encontrar por aí; ainda mais todas juntas, na mesma pessoa.

O que se passou depois todo mundo sabe. Vieram as contusões graves, o longo período de afastamento e a disputa com o clube tendo por pivô uma dessas empresas que, curiosamente, são chamadas de “parceiras” no mundo do futebol. Passou a haver uma brutal pressão pela venda imediata de Ganso para a Europa, pois a tal parceira queria fazer dinheiro rápido, como é de sua natureza. Espremido entre clube e investidores, Ganso se viu alvo de especulações variadas. A cada dia surgia na imprensa um clube interessado com o qual ele já teria acertado salários e outros detalhes. Até mesmo no rival Corinthians colocaram Ganso.

Segundo boatos, o clube do Parque São Jorge funcionaria como ponte para a transferência europeia. Custa crer que um clube com a grandeza do Corinthians se preste a semelhante papel. Mas, no mundo do futebol, quem botaria a mão no fogo por alguém ou alguma entidade? O quanto existe de verdade em tudo isso é difícil saber. O futebol tornou-se mercado especulativo, no qual notícias, não necessariamente com base real, são “plantadas” para causar determinados efeitos.

Grupos de investidores e agentes têm todo o interesse em desestabilizar vínculos de jogadores vendáveis com seus clubes porque é negociando atletas que realizam seu lucro. Precisam dos clubes apenas a título de vitrines, nas quais as commodities são exibidas e testadas para que possam ser repassadas aos mercados dominantes.

Em tudo isso, onde fica o fator humano? Em lugar nenhum. Para essa gente isso não conta. É papo “romântico”, segundo seu curioso vocabulário. Mas atenção: não acho que Ganso seja um coitadinho, manipulado por gente inescrupulosa. Ele tem sua parte de responsabilidade, mesmo porque é rapaz de personalidade forte, como já mostrou diversas vezes dentro de campo.

Parece, no entanto, que todo esse processo vem lhe roubando o fundamental, que é a alegria de jogar. Enquanto espera uma definição sobre o caso, desaparece em campo. Ou faz apenas o estritamente necessário para estar lá, vestindo uma camisa que já não parece mexer com seus sentimentos. É muito triste isso, e se for verdade, torço para que Ganso acorde a tempo e entenda que precisa apenas jogar o que sabe para conseguir o que deseja e merece.

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