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Olhar do Paraíso

Luiz Zanin Oricchio

19 Fevereiro 2010 | 14h03

Bastante estranho este Olhar do Paraíso (The Lovely Bones), de Peter Jackson. Parece investir alguma coisa no clima fantástico, para apenas depositar suas fichas na boa aposta (em termos de bilheteria) do tema da vida após a morte. Corre o risco de manter uma narradora que fala do além, mas essa coragem não é suficiente para assegurar originalidade ao filme. Não que isso seja impossível, mesmo porque está na base de um clássico como Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Vamos dar de barato que Jackson nunca tenha ouvido falar no “Bruxo do Cosme Velho”, mas por certo conhece Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, que parte de pressuposto semelhante. Alguém que já se foi e vê a própria vida e como ela terminou. Algo mais impressionante quando esse alguém é uma adolescente, Susie Salmon (Saoirse Ronan), e que morre assassinada. Ela mesma conta sua tragédia, e logo no início da história.

O resto será esse desenvolvimento em dois planos. O da vida, que prossegue sem Susie. E a nova condição de Susie, num limbo um tanto lisérgico, do qual ela pode observar o que se passa no mundo dos vivos. Há dois registros visuais, um para cada mundo. Um é mais “realista”. Outro, “fantasioso”. Este parece onírico, mundo de sonhos, mais do que de sombras. Mas, no fundo, apela para formas e cores berrantes, tudo meio brega, para falar a verdade.

Não se pode dizer que não haja alguns bons momentos em Olhar do Paraíso.Por exemplo, na relação “à distância” entre a filha e o pai desesperado (Mark Wahlberg), que tenta encontrar o assassino como se isso trouxesse a menina de volta. Há aí algo de emocionante, essa barreira intransponível causada pela morte – e que o filme tenta, piedosamente, contornar, eliminando o que ela tem de trágico. Mas para um trabalho que se deseja pouco convencional, Jackson recai na mesmice da caça ao criminoso, que nada tem de diferente da de outros serial killers criados pelo cinema. Para pôr um pouco de glicose na trama, usa (bem) alguns personagens secundários marcantes, sendo o principal a estouvada avó da menina, vivida pela sempre ótima Susan Sarandon. Ela é responsável por alguns pequenos toques de humor nessa trama mais chegada ao lado soturno da existência.

(Caderno 2, 19/2/10)