Olhar de Cinema: Rio Doce e outros filmes
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Olhar de Cinema: Rio Doce e outros filmes

Luiz Zanin Oricchio

10 de outubro de 2021 | 14h05

Tenho visto bastante coisa boa no Olhar de Cinema 2021. Registro uma boa surpresa, o pernambucano Rio Doce, de Fellipe Fernandes. Tiago (Okado do Canal) é separado, tem uma filha pequena e muitos problemas. Procurado por uma jovem, Tiago descobre algo sobre seu passado que irá alterar todo o seu modo de vida. 

Gostei da maneira despojada como os ambientes vão ganhando vida no desenvolvimento do enredo. Uma festa de aniversário, uma balada, uma reunião de família – tudo ganha tempo para se expor e dar espessura aos personagens e à história. Racismo, classes sociais e configurações familiares entram em cena nesse filme envolvente e comovente. E que ainda se dá ao luxo de um desfecho aberto, confiando na capacidade de imaginação do espectador. Muito bom. 

Também gostei muito do turco O Protetor do Irmão, de Ferit Karahan. Estamos num internato isolado nas montanhas, em pleno inverno. Um garoto é submetido a um castigo cruel e cai doente. Como pedir assistência médica naquelas circunstâncias? O filme fala em agressão contra crianças e também em solidariedade. Muito tocante em sua filmagem sóbria, nada chantagista do ponto de vista emocional. Exatamente por isso, emociona muito. 

Também de emoção contida é o russo Conferência, de Ivan Tvardovsky, que evoca um fato real. Em 2002, sequestradores chechenos tomaram um teatro lotado em Moscou e fizeram os espectadores de reféns. Tudo termina em tragédia, com a invasão do teatro por militares e saldo de uma centena de mortos. No filme, alguns sobreviventes se reúnem anos depois no mesmo teatro para reviver a experiência. É um filme sobre a memória e também sobre a difícil assimilação de fatos traumáticos. O dispositivo cinematográfico empregado contempla longos planos sequência. As encenações em tempo real dão peso às personagens e suas experiências dolorosas. Memória é a sua matéria-prima. 

Também o é nos filmes do palestino Kamal Aljafari. Em Porto da Memória, ele evoca Jaffa, outrora vivaz cidade palestina e agora uma extensão de Tel-Aviv em processo de gentrificação. Uma família vê-se ameaçada de ser despejada de sua casa pois não tem os papéis que comprovam a posse da propriedade. 

Em tom de realismo poético, a câmera percorre as ruas, as casas, algumas já transformadas em ruínas, a nostalgia do porto. Evocativo e político, pois a “perda da casa” tem um significado muito específico e direto para o povo palestino. 

Em Recordação, Kamal se vale de found footage de filmes realizados em Jaffa entre 1960 e 1990. A descontextualização de imagens alheias coloca em primeiro plano o que eram apenas detalhes e compõe um mosaico imaginário de memória daquela cidade em escombros. Seus personagens anônimos ganham sentido pela imaginação do cineasta, em sua história reconstruída e apenas suposta. 

Trata-se quase um trabalho de arqueologia de imagens, porém arqueologia poética, em que significados são alcançados pela superposição de camadas de sentido. Lindo filme. Tristíssimo.

Capitu e o Capítulo é o novo trabalho de Julio Bressane, uma releitura livre do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Uma recriação, na verdade, com Enrique Diaz como Machado, Mariana Ximenes como a dona dos “olhos de ressaca” e Vladimir Brichta como o ciumento Bentinho. 

Nada é linear, e a sutileza de Bressane permite entrever algo de difícil assimilação, o vínculo erótico entre Bentinho e Escobar, seu “comborço” na terminologia machadiana, o papel do tertius na relação, um tema psicanalítico. Filme para os sentidos e para o cérebro.  

Zinder, Aicha Macky, é um documentário filmado no distrito marginal de Kara Kara, no Níger, onde a violência em estado bruto parece dominar a sociedade. A diretora, filha do local, consegue  empatia com os moradores (e prisioneiros, pois há filmagens na prisão) e desvela camadas de humanidade sob a superfície brutal da realidade. 

O brasileiro O Sonho do Inútil, de José Marques de Carvalho, é um documentário até certo ponto surpreendente. Um grupo de amigos na zona norte carioca faz vídeos humorísticos e de automutilação. Parece piada sem graça, que eles vão registrando ao longo de 15 anos, de 2006 a 2021. Mas, nesses anos de filmagens, insinuam-se histórias verdadeiramente humanas e reveladoras da trincada sociedade brasileira. Inclusive o fim trágico de um deles, narrado de maneira pungente por seu pai, um policial aposentado. 

Um Céu Tão Nublado, do colombiano Álvaro Pulpeiro, revela uma Venezuela distante dos clichês habituais. O filme não busca qualquer síntese. Apenas retrata diversos aspectos do país pelo olhar de moradores que tentam sobreviver de algum jeito num país rico de petróleo, vivendo sob cerco diplomático e com uma inflação de 1 milhão % ao ano (!!!). As imagens, poéticas e evocativas, não formam um todo e menos ainda uma síntese. Cabe ao espectador assimilá-las e tirar suas conclusões. 

Por enquanto é isso. Hoje ainda vou ver mais três ou quatro filmes do Olhar. E, a partir de  amanhã, tem início a pororoca. Esse encontro das águas significa que o resto do Olhar de Cinema terá de conviver com o início das cabines da Mostra, o que, na prática, é o início da Mostra. 

Como encontrar tempo para ver tudo o que é preciso e ainda escrever, cuidar de outros afazeres e compromissos, dormir algumas horas por dia, alimentar-se e etc.? Eis a questão. Na dimensão da pandemia, tudo é acessível online e tudo acontece ao mesmo tempo. O dia continua a ter 24 horas. 

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