Olhar de Cinema 2016. O Manuscrito de Saragoça e outros
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Olhar de Cinema 2016. O Manuscrito de Saragoça e outros

Luiz Zanin Oricchio

11 de junho de 2016 | 13h04

 

O Manuscrito de Saragoça

O Manuscrito de Saragoça

Curitiba – Como disse no post anterior, tinha grande curiosidade em ver O Manuscrito de Saragoça. E não me decepcionei. A qualidade da cópia é impecável. Parecia um filme que tinha sido feito ontem. E Wojciech Jerzy Has, a meu ver, acertou no tom da versão, mesclando o fantástico ao picaresco. É meio terrorífica, mas ao mesmo tempo cômica, a situação enfrentada pelo oficial de cavalaria que, ao despertar de sonhos às vezes muito agradáveis, se vê sempre abraçado aos cadáveres de dois enforcados.

De resto, a estrutura do filme segue a da obra, sendo um labirinto de histórias que se bifurcam, à maneira dos relatos das Mil e Uma Noites que, dizem, foi uma das fontes de Jan Potocki, o aventureiro polonês autor do texto. Aliás, texto também de destino errático, envolvido em lendas. Potocki, que viveu durante a época da Revolução Francesa, foi seduzido pelo Iluminismo. Escreveu seu relato em francês, em vários volumes, mas consta que o original se perdeu. Por sorte, havia sido traduzido em polonês, país de origem do autor. Depois, essa versão foi retraduzida para o francês e então ganhou fama e mundo. É considerada pioneira (ou uma das pioneiras) da assim chamada literatura fantástica. Na edição francesa, da Gallimard, estabelecida e prefaciada por Roger Caillois, é definida como “obra-prima”. E Deus sabe como os franceses, ao contrário dos brasileiros, são econômicos ao usar esse tipo de terminologia.

O filme de Has é cheio de atmosfera, divertido, sensual. Feito em 1965, deixa o espectador envolvido ao longo dos seus 185 minutos de duração. Ninguém pisca o olho. Mesmo porque, se piscar, perde o fio da história.

Competição. Os dois filmes da competição Maestà, a Paixão do Cristo (França), de Andy Guérif, e Um Outro Ano (China), de Shangze Zhu, são obras de dispositivo, por assim dizer. Seus diretores elegem procedimentos estéticos bem determinados e os levam até as últimas consequências. Para o bem e para o mal.

Maestà é trabalho de artista plástico. Ele adapta um polípitico de 26 painéis pintados pelo mestre Duccio di Buoninsegna no século 14. E faz reviver a paixão de Cristo por meio de atores, que ocupam esses painéis de uma era em que a pintura não tinha perspectiva. Na tela do cinema, o que se vê é um split screen de 26 quadros, em dimensão de beleza muito grande porém de óbvia limitação dramatúrgica dada a distância mantida por personagens reduzidos a miniaturas.

Já Um Outro Ano, expõe, em planos estáticos, 13 refeições de uma mesma família ao longo dos 12 meses de um ano e mais uma coda. Câmera fixa e tempo real, mostrando os integrantes da família, ora todos juntos, ora em partes – pai e mãe, a filha adolescente, os dois filhos pequenos e mais um idoso. Conversas banais, daquelas que se dizem à mesa. Cobranças, brigas frequentes, afagos raros, como em toda família de qualquer parte da Terra. Algo do mundo se filtra para esse ambiente doméstico bastante modesto. O procedimento é interessante. Mas a sensação de monotonia se impõe.

Agora vou sair, almoçar e recomeçar a maratona. Temos dois filmes brasileiros da competição à noite e, antes deles, um programa de curtas que inclui A Moça que Dançou com o Diabo, premiado em Cannes.

Mas antes de tudo isso, pretendo reencontrar, na tela grande, o imenso Amarcord, do meu cineasta mais querido, Federico Fellini. O que mais dizer deste filme senão que é o estudo mais divertido e cáustico da memória, como se Fellini fosse um Proust caloroso e muitíssimo mais bem humorado? Enfim, ele se deixa rever como ouvimos de novo uma sinfonia de Beethoven ou uma ópera bastante amada, como Madame Butterfly, por exemplo. Conhecemos todos os detalhes e podemos nos antecipar a eles sem que percam nada do seu colorido. Sempre nos comovem, de novo e de novo e sempre. Acho que é assim com os clássicos. E, no cinema, numa sala com público e em tela grande, a experiência é inigualável.  

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