Olhar de Cinema 2016: clássicos, outros filmes, debates etc.
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Olhar de Cinema 2016: clássicos, outros filmes, debates etc.

Luiz Zanin Oricchio

14 de junho de 2016 | 19h25

Amarcord; Titta (Bruno Zanin) e la Gradisca (Magali Noël)

Amarcord; Titta (Bruno Zanin) e la Gradisca (Magali Noël)

 

Curitiba – Vamos falar mais um pouco do Olhar de Cinema. Já voltei a São Paulo, pois, depois de amanhã, parto para Fortaleza, rumo ao Cine Ceará. Choque térmico. Mais deixo ainda o local identificado como Curitiba pois é de lá que falo.

Um dos pontos altos do Olhar de Cinema foi a programação de clássicos. Um deles, Amarcord, de Federico Fellini, veio acompanhado de uma cereja do bolo – cerca de 10 minutos de sobras de filmagem, editadas por Giuseppe Tornatore, de Cinema Paradiso. Um show. Cópia restaurada pela Cineteca di Bologna, impecável. É muito emocionante rever na tela esse filme imenso, visto e revisitado inúmeras vezes, mas na tela pequena. Não, não é a mesma coisa, sorry. A tocante cena da aparição do Rex, o navio que emerge da noite, só causa seu efeito total na tela grande. Nos restos montados por Tornatore vemos claramente o mar de plástico que Fellini usava para criar seu real mas verdadeiro que a  realidade. Que filme!

Outro clássico revisitado foi Como Era Verde meu Vale, de John Ford, o filme conhecido por ter derrotado Cidadão Kane no Oscar de 1941. Também numa cópia que parecia zero quilômetro, toda a solidez narrativa de Ford e sua integridade na história dos mineiros galeses, a família Morgan e o amor infeliz de Maureen O’Hara, como Angharad. Fiquei pensando em como Spielberg, nos seus filmes adultos, tenta ser fordiano sem chegar a roçar a grandeza do original. Ford é madeira de lei.   

Também foi ótimo rever São Paulo Sociedade Anônima em cópia 35 milímetros cedida pela Cinemateca de São Paulo. Quantas projeções mais veremos em 35mm e ainda mais dessa obra maior de Luis Sergio Person, que ganhou retrospectiva no Olhar de Cinema? Vi dele também o episódio de Trilogia do Terror e dois curtas realizados quando estudava no Centro Sperimentale di Roma, Pega Ladrão e O Otimista Sorridente. O primeiro é um ensaio neorrealista sobre o homem que tem sua carteira roubada por um malandro em Roma. O outro é pura dança e movimento, de uma leveza extraordinária.

Devo registrar também que estiveram em Curitiba a mulher de Person, Regina Jehá, e as duas filhas do casal, Marina e Domingas. Elas debateram a obra de Person, que morreu há 40 anos e faria 80 em 2016 e acompanharam a projeção dos filmes, conversando depois com o público. Foi bem legal. Recomendei a elas que não perdessem O Manuscrito de Saragoça. Foram ver. 

Como é de hábito em Curitiba, a parte de debates foi bem pensada, mas pouco pude aproveitar dela em razão do excesso de filmes. Era uma coisa ou outra. Senti ter perdido o debate A Cultura em Tempo de Golpe, com o ex-ministro Juca Ferreira, o cineasta Aly Muritiba (um dos diretores do festival) e o crítico e curador Eduardo Valente. Me disseram que foi muito bom. E o fato de ter sido realizado em Curitiba, na boca do lobo, por assim dizer, o torna ainda mais importante.

Eu mesmo participei de uma dessas atividades, Crítica e Curadoria, com Cecilia Barrionuevo (Argentina), John Campos Gómez (Peru) e Roger Koza (Argentina). Achei a conversa boa, mas não sei se o público também achou a mesma coisa. No entanto, uma pessoa que estava na plateia, conhecida por seu alto grau de exigência, me garantiu que foi bastante interessante. Então, tá. É sempre bom contribuir, nem que seja um tiquinho, para movimentar ideias, ainda mais neste momento de profunda burrice do país. Cada um de nós tem de fazer a sua parte para não afundarmos de vez na barbárie. Mas esta é outra história.

Gostaria de ter visto mais do cineasta argentino Matías Piñero, homenageado pelo festival. Mas tive de me contentar com Rosalinda, um Shakespeare adaptado para os dias atuais. Me pareceu ok, mas não me tocou de modo particular. Devo dizer, porém, que eu não estava em condições físicas ideais para apreciar o filme, este ou qualquer outro. Exausto, os sentidos se embotam. Deixo assim em suspenso.

Vi vários filmes da competitiva, entre eles os brasileiros o Estranho Caso de Ezequiel, de Guto Parente, e Eles Vieram e Roubaram a Sua Alma, de Daniel de Bem. Dois exemplares do cinema jovem e independente que está sendo feito no país. Talvez se destaquem mais pela ousadia de propósitos e pela liberdade narrativa do que pelo resultado.

Em A Cidade do Futuro, Cláudio Marques e Marília Hughes fazem um corajoso doc encenado pelos próprios personagens e que trata de uma forma não usual de organização familiar. A mulher, dois rapazes em união homoafetiva e um bebê a caminho. Em tempos regressivos como os que vivemos agora no Brasil, o filme torna-se ainda mais necessário e desafiante.

Gulístan, Terra de Rosas, do Curdistão (embora a coprodução seja Alemanha-Canadá), mostra as guerreiras em sua luta contra o Estado Islâmico. Dirigido por Zaynê Akyol, o filme revela o lado feminino e feminista das mulheres que tratam suas metralhadoras com todo o carinho e batizam as armas com nomes familiares. Ao mesmo tempo, estão presentes o medo, a espera da guerra e do combate, a solidão na véspera do enfrentamento. Belas e duras cenas de espera, à maneira de O Deserto dos Tártaros. Mas aqui não é ficção; é guerra, no duro.

Surpreendente mesmo foi A Última Terra, do paraguaio Pablo Lamar, sobre uma tocante cerimônia de adeus. Um velho casal vive numa casa isolada e a mulher encontra-se à morte. O marido a atende em sua passagem. Os planos são longos, estáticos muitas vezes, a luz é natural. Tudo é dito sem um diálogo. Os ruídos da mata, do fogo, da água, da madeira, “falam” por si sós. Com Ramón del Rio (de Hamaca Paraguaya) e a brasileira Vera Valdés. É um trabalho notável e não me causaria surpresa se ganhasse o festival.  

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