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Olhar de Cinema: as crianças de Lav Diaz

Luiz Zanin Oricchio

14 de junho de 2015 | 12h58

Em Lav Diaz, famoso pela extensão de seus filmes, o fluxo narrativo também não é dos mais usuais. Em Storm Children, Book 1, temos o que pode ser considerado um curta-metragem para os padrões de Diaz – “apenas” 143 minutos. Hora e tanto de imagens impressionantes, em preto e branco, cujo sentido descobrimos aos poucos. No princípio, vemos cenas de enxurrada numa cidade e crianças que procuram alguma coisa em meio ao lixo trazido pelas águas. Depois, as mesmas crianças escavam num aterro, em busca de não se sabe o quê. Em seguida, mais cenas impressionantes. Cascos de navios, encalhados na terra e favelas que parecem proliferar em torno desse cemitério de navios, com as pessoas buscando peças que, supõem, tenham algum valor. Três quartos do filme passam-se sem qualquer diálogo ou explicação. Depois, ouvimos vagas alusões a um tufão que ocasionou mortes, jogou navios ancorados em cima das casas e deixou atrás de si um rastro de miséria e destruição. Foi o furacão Yolanda, que se abateu sobre as Filipinas em 2013. O filme é rodado em Tacloban City, devastada pelo tufão.
O notável de Storm Children é ir apresentando, sem nada explicar, os bastidores de toda uma vida social baseada sobre a garimpagem de restos, com vistas à sobrevivência. Quando sabemos que esses restos foram provocados por uma catástrofe natural, essa procura ganha novos significados. Em todo caso, as pessoas estão lá, jogadas à própria sorte, haja ou não furacões e tormentas. E, nem por isso, o impulso lúdico das crianças se esgota na luta pela sobrevivência física. Afinal, os cascos dos navios canibalizados continuam lá e, além de fornecerem matéria para ganho de alguns trocados, servem também como trampolins. O filme é lindo e pungente.

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