Olhar de Cinema: a delicadeza de João Bénard da Costa…e outras milongas
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Olhar de Cinema: a delicadeza de João Bénard da Costa…e outras milongas

Luiz Zanin Oricchio

16 de junho de 2015 | 12h02

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CURITIBA – Até agora, na opinião deste crítico, os dois melhores filmes do Olhar de Cinema 2015 são o documentário João Bénard da Costa – Outros Amarão as Coisas que eu Amei, de Manuel Mozos (Portugal), e a ficção Koza, de Ivan Ostrochovsky (Eslováquia).

De João Bénard da Costa, poucos brasileiros provavelmente ouviram falar. Durante 18 anos foi diretor da Cinemateca Portuguesa, mas também ator, cinéfilo, escritor. Um intelectual do cinema, no melhor sentido do termo. Isto é, alguém que faz do cinema uma ponte de compreensão para a vida e o mundo. O filme de Mozos traz essa dimensão de maneira integral. E algumas das obsessões cinefílicas de Bénard – Johnny Guitar, de Nicolas Ray, Ordet, de Carl Dreyer, e The Ghost and Mrs. Muir, de Joseph Mankiewicz delimitam seu campo de pensamento. Três filmes que falam da morte, obviamente, mas o documentário é, ele todo, uma vibrante ode à vida, à inteligência, à sensibilidade. Como o cinema deveria ser, num mundo menos imperfeito. Ao final da sessão, longos aplausos. Pensei até que o diretor estivesse na sala. Nada disso. O público apenas agradecia os momentos de encantamento que havia vivido. Graças ao cinema.

Koza é uma bela surpresa vinda da Eslováquia. O título é o nome do lutador, já aposentado, que precisa voltar ao ringue para ganhar uma grana extra. Sua mulher está esperando um segundo filho e deseja interromper a gravidez. Precisa do dinheiro para o aborto. Koza, sem saúde ou condições físicas, volta aos ringues para levantar o dinheiro. Ele mesmo deseja que a criança nasça. Mas atende à vontade da companheira. Envelhecido e fora de forma, torna-se um saco de pancadas no ringue.

Koza é interpretado por Peter Baláz, ex-pugilista que competiu por seu país nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Empresta verdade ao personagem. Num relato seco, de tom documental, acompanhamos o calvário do pugilista decadente, acompanhado do seu empresário. É tocante. Impossível não pensar como o boxe inspirou tantos bons filmes, de Punhos de Campeão a Touro Indomável. Koza, desde já, soma-se à série.

Entre os brasileiros, gostei de A Misteriosa Morte de Pérola, de Guto Parente. Na verdade, uma parceria muito estreita com a atriz principal, Ticiana Augusto Lima, que faz a jovem estudante de arte em uma cidade francesa. Na solidão do apartamento, ela começa a fantasiar presenças estranhas, como se as reproduções dos quadros famosos, que tem nas paredes, fosse ganhando vida. Há um diálogo claro entre Parente e o cinema de terror, ou de suspense, melhor dizendo. Algo de Polanski, em seu O Inquilino, também está presente. Tenta resolver tudo ou quase tudo apenas na base das imagens, dos sons e do clima, com pouquíssimos diálogos. Afinal, é um filme de solidão, impregnado de mistério. Muito bem construído e envolvente.

Às vezes é melhor não saber nada sobre um filme. Entrei por acaso para ver Nova Dubai e, logo nas primeiras imagens, fui surpreendido por uma cena de sexo entre dois rapazes. Há várias cenas desse tipo ao longo do filme. Algumas explícitas. A intenção é chocar? Conheço o diretor, Gustavo Vinagre, autor de um belo curta-metragem, La Llamada. Assim mesmo, em espanhol, rodado em Cuba, um curta sutil e delicado. Agora o estilo muda. Vira porrada.

Há essa dupla de namorados, que gosta de transar em praça pública. Um deles explica (ao espectador?) que é claustrofóbico. Não consegue gozar entre quatro paredes. Ou seja, não há intimidade. Há “ex-timidade”, esse interessante neologismo criado para evocar a evasão de privacidade do nosso tempo. Em Nova Dubai ela é levada ao paroxismo. Ao mesmo tempo, sim, há a especulação imobiliária. Nova Dubai será o condomínio vertical a ocupar um terreno vazio, parte da paisagem urbana a se degradar.

E assim, há esse sexo compulsivo e exibicionista a fazer contraponto ao horror imobiliário que atinge a maior parte das cidades brasileiras. O nosso, digamos assim, “modelo”de crescimento.
Não se pode, no entanto, esconder o projeto um tanto desconjuntado do filme, sua, para usar a mesma metáfora, arquitetura de gosto duvidoso. Não se trata, obviamente, de fazer uma crítica de caráter moral, apesar de a natureza do filme suscitar algumas perguntas interessantes – qual a fronteira entre o pornô explícito e o sexo como linguagem? Ou será mesmo que essa fronteira existe e, a esta altura do campeonato, justifica que percamos tempo tentando delimitá-la?

Seja como for, e quais forem as respostas possíveis a perguntas tão vagas e vastas, fica o ponto: por que motivo Nova Dubai não consegue, de fato, articular imagens da sexualidade com a devastação da cidade? Parecem, de fato, duas realidades sem conexão. Há coragem no filme? Sem dúvida. Mas coragem, por si só, basta para fazer uma obra? Ou o diretor simplesmente sucumbe ao apelo do sensacionalismo?